{"id":754,"date":"2024-11-22T17:00:54","date_gmt":"2024-11-22T17:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=754"},"modified":"2025-07-05T12:01:13","modified_gmt":"2025-07-05T12:01:13","slug":"754-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=754","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"619\" height=\"393\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rosa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-314\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rosa.jpg 619w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rosa-300x190.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 619px) 100vw, 619px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Rosa Dias, agricultora agroecol\u00f3gica na Quinta da Fornalha e fundadora da Associa\u00e7\u00e3o Al-Bio &#8211; Castro Marim, Vila Real de S. Ant\u00f3nio, Faro<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Rosa Dias nunca planeou ser agricultora, nem estudou para isso. No entanto, sempre manteve uma liga\u00e7\u00e3o profunda, familiar e emocional, \u00e0 terra. Filha de um agricultor biol\u00f3gico com mais de 30 anos de experi\u00eancia, cresceu a testemunhar as dificuldades do pai: primeiro, pela inexist\u00eancia de um mercado s\u00f3lido para a agricultura biol\u00f3gica; depois, pela concorr\u00eancia desleal do figo seco turco e da am\u00eandoa americana, favorecidos por acordos bilaterais da Uni\u00e3o Europeia nos anos 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2008, em plena crise econ\u00f3mica, Rosa decidiu assumir o desafio de preservar o patrim\u00f3nio agr\u00edcola da fam\u00edlia, transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o desde o terramoto de 1755. Recusou ceder \u00e0 penhora do banco ou transformar a quinta \u201cnum resort, num campo de golfe, num pomar de citrinos, numa planta\u00e7\u00e3o de abacates ou em estufas de framboesas\u201d, solu\u00e7\u00f5es comuns no Algarve, mas impens\u00e1veis para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Jovem m\u00e3e e rec\u00e9m-licenciada, instalou-se como agricultora, aproveitando as \u00faltimas subven\u00e7\u00f5es para jovens agricultores que n\u00e3o exigiam investimento inicial. Participou tamb\u00e9m num\u00a0Programa de Empreendedorismo no Feminino, promovido pela Comiss\u00e3o para a Igualdade de G\u00e9nero, que descreve como \u201cestruturalmente bem feito\u201d, com consultoria e um pr\u00e9mio para quem mantivesse a empresa ativa durante dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.quinta-da-fornalha.com\/\">Quinta da Fornalha<\/a>, com mais de 30 hectares, \u00e9 um mosaico agr\u00edcola: 9 ha de alfarrobeiras, 5 ha de pinhal, 5 ha de figueiras, 5 ha de laranjeiras, 2 a 3 ha de oliveiras e um lago. \u201c\u00c9 uma propriedade muito diversificada\u201d, explica. H\u00e1 13 anos que exporta figo fresco, uma das principais fontes de rendimento. Mas a diversifica\u00e7\u00e3o tornou-se essencial: criou um restaurante, unidades de turismo rural e uma pequena unidade de transforma\u00e7\u00e3o alimentar, onde aproveita produtos com menor valor comercial. \u201cPercebi que n\u00e3o podia depender de um \u00fanico modelo de neg\u00f3cio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A consci\u00eancia ecol\u00f3gica vem de fam\u00edlia. Rosa apercebeu-se rapidamente de que a aus\u00eancia de cobertura vegetal agravava a eros\u00e3o, comprometia a produ\u00e7\u00e3o e a longevidade das \u00e1rvores. Desde ent\u00e3o, tem trabalhado para transformar a quinta numa\u00a0floresta cont\u00ednua, onde as copas das \u00e1rvores protegem o solo, promovendo a acumula\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica \u2014 essencial para enfrentar os ver\u00f5es cada vez mais secos.<\/p>\n\n\n\n<p>O in\u00edcio foi dif\u00edcil. Num sector dominado por homens, sentiu-se muitas vezes subestimada. N\u00e3o tinha transporte refrigerado, e ainda hoje n\u00e3o disp\u00f5e de uma doca de carga para os figos frescos. Mas manteve-se firme: \u201cSer mulher d\u00e1-me uma boa dose de resili\u00eancia para enfrentar os desafios com os recursos que tenho.\u201d Ainda assim, n\u00e3o s\u00e3o raras as vezes em que visitantes perguntam: \u201cOnde est\u00e1 o homem?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa acredita que a sua abordagem diversificada reflete uma vis\u00e3o feminina da agricultura. \u201cEm vez de uma l\u00f3gica puramente econ\u00f3mica, vejo o sistema como algo mais complexo. Mesmo que algumas atividades n\u00e3o sejam muito rent\u00e1veis, acabam por potenciar outras.\u201d Para ela, esta capacidade de sacrificar o lucro imediato em nome de uma vis\u00e3o mais ampla \u00e9 comum entre mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa perspetiva est\u00e1, segundo Rosa, ligada ao papel das mulheres na gest\u00e3o das fases fr\u00e1geis da vida \u2014 cuidar de beb\u00e9s, de idosos, de quem precisa. \u201cSabemos que todos nascemos indefesos e morremos indefesos. Sem uma rede social de cuidados, n\u00e3o existimos. Talvez por isso seja mais f\u00e1cil transferir essa vis\u00e3o para a agroecologia.\u201d \u00c9 tamb\u00e9m por isso, acredita, que tantas mulheres se envolvem neste tipo de agricultura e iniciativas solid\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa \u00e9 uma das fundadoras da\u00a0<a href=\"https:\/\/al-bio.pt\/\">Al-Bio \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Agroecol\u00f3gica<\/a>, uma organiza\u00e7\u00e3o maioritariamente feminina que apoia pequenos agricultores na comercializa\u00e7\u00e3o, oferece forma\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia t\u00e9cnica, e trabalha para criar\u00a0massa cr\u00edtica\u00a0no sector, pressionando os decisores pol\u00edticos. Este \u00faltimo ponto tornou-se ainda mais urgente ao perceberem que o Minist\u00e9rio da Agricultura e outras entidades p\u00fablicas frequentemente excluem os pequenos agricultores biol\u00f3gicos e agroecol\u00f3gicos das medidas de apoio da Pol\u00edtica Agr\u00edcola Comum (PAC).<\/p>\n\n\n\n<p>Nas reuni\u00f5es com organismos p\u00fablicos, Rosa \u00e9 muitas vezes a \u00fanica mulher presente. Relata epis\u00f3dios frequentes de&nbsp;<em>mansplaining<\/em>&nbsp;e desvaloriza\u00e7\u00e3o das suas ideias. Atribui isso a preconceito ou \u00e0 dificuldade de compreender uma agricultura baseada no cuidado e no amor, e n\u00e3o apenas na extra\u00e7\u00e3o e no lucro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a PAC, \u00e9 cr\u00edtica da forma como tem sido aplicada em Portugal. \u201cO Estado est\u00e1 de costas voltadas para n\u00f3s, os pequenos agricultores.\u201d Ficou particularmente indignada quando a produ\u00e7\u00e3o integrada foi inclu\u00edda nos apoios \u00e0 agricultura biol\u00f3gica, diluindo o impacto das pol\u00edticas e desviando recursos de quem realmente pratica uma agricultura sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa defende um conjunto de medidas para transformar o sector:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Campanhas de sensibiliza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0para desconstruir preconceitos sobre a agricultura biol\u00f3gica;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Reativa\u00e7\u00e3o dos Centros Agr\u00e1rios<\/strong>, com apoio t\u00e9cnico \u00e0 convers\u00e3o e combate a pragas;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Investimento em investiga\u00e7\u00e3o aplicada<\/strong>, com foco em culturas regionais como a figueira e a alfarrobeira;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Redu\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios \u00e0 prote\u00e7\u00e3o integrada<\/strong>, tornando obrigat\u00f3rios os requisitos atualmente subsidiados;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Modula\u00e7\u00e3o dos apoios<\/strong>, reconhecendo diferentes n\u00edveis de agroecologia;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Forma\u00e7\u00e3o e tutoria para mulheres agricultoras<\/strong>;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Iniciativas municipais<\/strong>\u00a0para abastecimento da restaura\u00e7\u00e3o coletiva com produ\u00e7\u00e3o local;<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Benef\u00edcios fiscais<\/strong>\u00a0para sistemas agr\u00edcolas mais complexos, que exigem mais m\u00e3o-de-obra mas oferecem maiores benef\u00edcios ambientais e sociais.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"863\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Aurora-1024x863.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-301\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Aurora-1024x863.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Aurora-300x253.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Aurora-768x647.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Aurora.jpg 1257w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Aurora Silva, agricultora, fundadora da Associa\u00e7\u00e3o Arcas de Covelinhas e membro da UMAR Viseu &#8211; Covelinhas, S. Pedro do Sul, Viseu<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aurora nasceu e sempre viveu na aldeia de Covelinhas, situada entre as serras de S\u00e3o Mac\u00e1rio e Montemuro, na regi\u00e3o de Laf\u00f5es. A aldeia pertence \u00e0 freguesia de S\u00e3o Martinho das Moitas, no concelho de S\u00e3o Pedro do Sul, distrito de Viseu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 2017, Aurora, juntamente com outras pessoas da aldeia, fundou a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/ARCASdeCovelinhas\/?locale=pt_PT\">Associa\u00e7\u00e3o Arcas de Covelinhas<\/a>, da qual \u00e9 s\u00f3cia. Com o apoio de outras mulheres, dinamiza atividades ligadas ao ciclo da l\u00e3, com o objetivo de preservar a mem\u00f3ria desta tradi\u00e7\u00e3o ancestral.<\/p>\n\n\n\n<p>Participa tamb\u00e9m em <a href=\"https:\/\/pt-pt.facebook.com\/projetogiesta\/\">projetos<\/a> promovidos pela\u00a0<a href=\"https:\/\/fragasaveloso.pt\/\">Associa\u00e7\u00e3o Fragas Aveloso<\/a>, uma organiza\u00e7\u00e3o de desenvolvimento local que atua na regi\u00e3o com enfoque em quest\u00f5es ambientais e feministas, e pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/umarviseu\/?locale=pt_PT\">UMAR Viseu<\/a>, uma associa\u00e7\u00e3o feminista de \u00e2mbito nacional. Estes projetos, dirigidos a mulheres rurais dos distritos de Viseu e da Guarda, utilizam metodologias participativas para promover a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e dar visibilidade ao trabalho e aos saberes das mulheres do mundo rural.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado dessas iniciativas, foi aprovado, a 15 de outubro de 2023 \u2014 Dia Internacional da Mulher Rural \u2014 um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/photo\/?fbid=737185651770287&amp;set=a.581121044043416\">Manifesto em defesa dos direitos das mulheres rurais<\/a>, apresentado publicamente um ano depois, \u00e0 sociedade e aos decisores pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA minha vida sempre foi trabalhar a terra\u201d<strong>,<\/strong>\u00a0afirma Aurora. Mesmo quando teve outras ocupa\u00e7\u00f5es, nunca deixou de cultivar a horta e criar animais para alimentar a fam\u00edlia alargada. \u201cPara a minha fam\u00edlia, a pra\u00e7a \u00e9 as minhas serras, \u00e9 a minha casa.\u201d O que excede o consumo familiar \u00e9 partilhado com os vizinhos, raramente vende o que produz.<\/p>\n\n\n\n<p>Segue os m\u00e9todos tradicionais que aprendeu com a m\u00e3e: reproduz as suas pr\u00f3prias sementes e utiliza estrume dos animais como fertilizante. A principal mudan\u00e7a ao longo dos anos foi a introdu\u00e7\u00e3o do trator, que facilitou muito o trabalho. Evita o uso de qu\u00edmicos, recorrendo a eles apenas em casos pontuais, como no combate ao escaravelho da batata.<\/p>\n\n\n\n<p>Divide o trabalho agr\u00edcola com o marido, mas tamb\u00e9m assume sozinha as tarefas dom\u00e9sticas: \u201cFa\u00e7o o trabalho da agricultura e fa\u00e7o o trabalho de casa, que n\u00e3o tenho quem o fa\u00e7a.\u201d A divis\u00e3o das tarefas no campo \u00e9 feita conforme as capacidades de cada um: \u201cEu ando mais na horta. Se for para cavar terras mais duras, vai ele. Se for para sachar, regar ou apanhar, j\u00e1 vou eu.\u201d Agora reformados, trabalham menos, pois \u201cn\u00e3o d\u00e1 para serem escravos do trabalho.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Aurora recorda como, no passado, as mulheres eram sobrecarregadas: \u201cEram muito escravas, trabalhavam de manh\u00e3 \u00e0 noite.\u201d Carregavam molhos de feno e milho \u00e0 cabe\u00e7a, percorriam longas dist\u00e2ncias para sachar, regar ou colher batatas e milho, cuidavam das suas hortas e animais, faziam o trabalho dom\u00e9stico e, \u00e0 noite, ainda trabalhavam a l\u00e3. Quando era nova, acompanhava a m\u00e3e nesses trabalhos em quintas distantes: \u201cEu fazia a comida e levava-lha \u00e0s terras, a p\u00e9, a uma hora de caminho.\u201d Era um trabalho de entreajuda entre vizinhos, sem remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhou como assalariada agr\u00edcola apenas no final dos anos 1970, na recolha de resina. uma tarefa de que gostou muito. Ainda assim, lembra que \u201cos homens ganhavam mais que as mulheres\u201d, mesmo quando \u201co trabalho deles era mais leve.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Valoriza profundamente as atividades promovidas pela\u00a0UMAR Viseu: \u201cGosto, porque \u00e9 uma oportunidade para aprender, para perceber algumas coisas.\u201d Diz que sempre viveu na aldeia e viu pouco do mundo, e que estas iniciativas lhe permitem abrir horizontes e conviver com outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas, critica a escassez de transportes na aldeia. Como n\u00e3o conduz, depende do marido para se deslocar, o que limita a sua autonomia. Tamb\u00e9m aponta falhas no acesso \u00e0 sa\u00fade: \u201cChegamos ao centro de sa\u00fade e n\u00e3o h\u00e1 consulta, temos de voltar pelo mesmo caminho.\u201d Lamenta ainda a aus\u00eancia de pol\u00edticas eficazes para fixar jovens na aldeia, onde a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais envelhecida e reduzida.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"958\" height=\"774\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Carmen-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-323\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Carmen-1.jpg 958w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Carmen-1-300x242.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Carmen-1-768x620.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 958px) 100vw, 958px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Carmen Staats, agricultora agroecol\u00f3gica e fundadora do Mercadinho do Bot\u00e2nico &#8211; Lous\u00e3, Coimbra<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Carmen, de origem alem\u00e3, estudou Medicina, mas escolheu um caminho diferente ao estabelecer-se, nos anos 1980, na serra da Lous\u00e3 como agricultora. Filha e neta de agricultores, come\u00e7ou por cultivar para consumo familiar e, mais tarde, para venda. A sua decis\u00e3o surpreendia os habitantes locais: \u201cNaquela altura, ningu\u00e9m entendia por que raz\u00e3o dois alem\u00e3es vinham viver para o meio rural em Portugal, quando os portugueses das aldeias estavam a emigrar para a Su\u00ed\u00e7a, Alemanha ou Fran\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma das pioneiras da agricultura biol\u00f3gica na regi\u00e3o, uma pr\u00e1tica que, \u00e0 \u00e9poca, parecia \u201cfora deste mundo\u201d, como recorda. Conta, entre risos, o epis\u00f3dio de um vizinho octogen\u00e1rio que, querendo ajudar, aplicou pesticidas na sua horta durante a noite. \u201cLevou um raspanete\u201d, diz. Com o tempo, os mesmos vizinhos come\u00e7aram a procur\u00e1-la para saber como cultivar sem qu\u00edmicos. \u201c\u00c9 interessante\u201d, reflete, observando a mudan\u00e7a de mentalidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Carmen dedica-se sobretudo \u00e0 horticultura em pequena escala, privilegiando a diversidade em vez da quantidade. Essa escolha, explica, ajuda a reduzir riscos e a manter a resili\u00eancia. Defensora dos circuitos curtos, vende diretamente ao consumidor: \u201c\u00c9 mais justo, tanto para mim como para quem compra.\u201d Critica duramente a depend\u00eancia dos agricultores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes cadeias de supermercados: \u201c\u00c9 um crime o que fizeram aos agricultores.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Acredita profundamente na for\u00e7a do trabalho coletivo. Com outros produtores ecol\u00f3gicos, organizou um pequeno mercado de trocas e vendas na Lous\u00e3, que mais tarde deu origem ao\u00a0<a href=\"https:\/\/pt-pt.facebook.com\/mercadinhodobotanicocoimbra\/\">Mercadinho do Bot\u00e2nico<\/a>, em Coimbra, junto \u00e0 universidade. Durante anos, este espa\u00e7o reuniu entre 16 e 20 agricultores \u2014 alguns certificados em modo biol\u00f3gico, outros n\u00e3o \u2014 e implementou um sistema de certifica\u00e7\u00e3o participativa, com visitas \u00e0s explora\u00e7\u00f5es, que \u201cfuncionou muito bem\u201d e refor\u00e7ou a confian\u00e7a dos consumidores.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a pandemia, o Mercadinho foi encerrado e n\u00e3o voltou a ser retomado. Atualmente, Carmen vende os seus produtos no\u00a0<em>Mercado do Calhab\u00e9<\/em>, em Coimbra, onde continua a promover os princ\u00edpios da agricultura sustent\u00e1vel e da venda direta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca sentiu barreiras por ser mulher na agricultura: \u201cPara mim, n\u00e3o existiam.\u201d No in\u00edcio, alguns tratoristas resistiam a aceitar indica\u00e7\u00f5es suas, mas com o tempo conquistou o respeito de todos. Reconhece, no entanto, que o facto de ser estrangeira pode ter influenciado essa aceita\u00e7\u00e3o: \u201cDe mim aceitavam comportamentos que, certamente, n\u00e3o aceitariam das suas pr\u00f3prias esposas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Observa que, na pequena agricultura, s\u00e3o sobretudo as mulheres que predominam, especialmente na horticultura e fruticultura, \u00e1reas que n\u00e3o exigem maquinaria pesada nem grandes extens\u00f5es de terra. Muitas acumulam o trabalho agr\u00edcola com o dom\u00e9stico, num esfor\u00e7o duplo que Carmen considera not\u00e1vel: \u201cS\u00e3o fant\u00e1sticas em fazer v\u00e1rias tarefas ao mesmo tempo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nos mercados, nota que s\u00e3o geralmente as mulheres que vendem os produtos, enquanto os homens se dedicam mais ao trabalho com tratores, afastados das hortas. No entanto, nas gera\u00e7\u00f5es mais jovens, observa uma maior partilha de responsabilidades, refletindo mudan\u00e7as culturais positivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou \u00e0 serra da Lous\u00e3, lembra-se de que as mulheres n\u00e3o entravam nos caf\u00e9s \u2014 um reflexo das desigualdades de g\u00e9nero da \u00e9poca. Hoje, esse cen\u00e1rio mudou. Para Carmen, o mundo rural sempre teve uma divis\u00e3o clara de tarefas entre homens e mulheres, mas com respeito e equil\u00edbrio. Ainda assim, reconhece que essa realidade est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o, sobretudo entre os mais jovens, onde as din\u00e2micas de g\u00e9nero se tornaram mais flex\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Carmen \u00e9 cr\u00edtica das pol\u00edticas que promovem a importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o massiva de alimentos, prejudicando os agricultores locais e os pa\u00edses mais pobres. Defende o apoio \u00e0 venda direta e aos circuitos curtos como pilares de uma agricultura sustent\u00e1vel e de uma economia mais justa. Para ela, valorizar as pr\u00e1ticas ecol\u00f3gicas e a produ\u00e7\u00e3o local \u00e9 essencial para construir um futuro mais equilibrado e solid\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"896\" height=\"746\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Fatima-Costa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-324\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Fatima-Costa.jpg 896w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Fatima-Costa-300x250.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Fatima-Costa-768x639.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 896px) 100vw, 896px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">F\u00e1tima Costa, agricultora tradicional e trabalhadora agr\u00edcola, membro da Cooperativa Integral A Geradora &#8211; P\u00f3voa do Concelho, Trancoso, Guarda<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>F\u00e1tima tem uma vida profundamente marcada pela liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra e pelo trabalho agr\u00edcola. Com apenas a 4.\u00aa classe, come\u00e7ou desde cedo a trabalhar com os pais, cultivando batata, castanha e centeio, numa \u00e9poca em que \u201cse ceifava muito\u201d. Ficou vi\u00fava aos 38 anos, com tr\u00eas filhos em idade escolar, enfrentando desafios enormes. Trabalhou durante alguns anos na f\u00e1brica de cal\u00e7ado Rohde, at\u00e9 ao seu encerramento, e dedicou mais de uma d\u00e9cada a cuidar da m\u00e3e doente, sem qualquer apoio institucional. \u201cTive que deitar as m\u00e3os \u00e0 vida\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos terrenos herdados do pai, F\u00e1tima sempre manteve uma pequena horta para consumo pr\u00f3prio, com algum olival e milho. No entanto, reconhece que a agricultura em pequena escala n\u00e3o permite uma subsist\u00eancia digna: \u201cPara vender \u00e9 pouco, porque a agricultura n\u00e3o d\u00e1. Uma pessoa em miniatura, n\u00e3o d\u00e1.\u201d A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a castanha, produto de elevada qualidade e grande procura, mas cujo pre\u00e7o pago aos produtores \u00e9 injusto. \u201cVendo a intermedi\u00e1rios. O pobre do trabalhador \u00e9 o que fica com menos; podiam pagar-nos um pouco mais, mas n\u00e3o pagam.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das dificuldades, mant\u00e9m um carinho especial pela vida agr\u00edcola: \u201cGosto da agricultura. \u00c9 bom comermos o que \u00e9 natural, fazermos para n\u00f3s.\u201d Evita ao m\u00e1ximo o uso de qu\u00edmicos, sobretudo na produ\u00e7\u00e3o para consumo pr\u00f3prio, embora reconhe\u00e7a que, em larga escala, a escassez de m\u00e3o-de-obra torna dif\u00edcil prescindir deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte do que sabe aprendeu com a m\u00e3e. Recorda a sabedoria dos antigos na escolha dos terrenos junto aos barrocos \u2014 forma\u00e7\u00f5es rochosas t\u00edpicas da paisagem \u2014 para plantar centeio. \u201cDe volta do barroco \u00e9 que d\u00e1 a espiga maior\u201d, diziam os seus antepassados, e F\u00e1tima confirmou mais tarde, quando foi ela a cultivar. Hoje j\u00e1 n\u00e3o planta centeio: os pre\u00e7os n\u00e3o compensam o esfor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, complementa os rendimentos com trabalho sazonal noutras explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, como na prepara\u00e7\u00e3o de vinhas, vindimas e apanha de ma\u00e7\u00e3s. Denuncia a desigualdade salarial entre homens e mulheres: \u201cFazemos o mesmo trabalho e ganhamos menos.\u201d Enquanto as mulheres recebem entre 30 e 35 euros por oito horas de trabalho, os homens recebem entre 40 e 45. \u201cE se conseguimos um aumento, eles reclamam para ganhar mais \u2014 e conseguem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00e1tima encontrou na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/a.geradora.coop\">Cooperativa Integral A Geradora<\/a>, criada em 2022, um espa\u00e7o de partilha e dinamiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Ap\u00f3s uma reuni\u00e3o sobre o papel das mulheres rurais na agricultura, come\u00e7ou a acompanhar de perto a ideia de criar uma cooperativa agr\u00edcola feminina, para comercializar os produtos das hortas locais \u2014 uma iniciativa ainda em fase de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Participa ativamente nas atividades da cooperativa, como caminhadas, almo\u00e7os comunit\u00e1rios, o grupo de teatro e a organiza\u00e7\u00e3o da festa anual\u00a0<a href=\"https:\/\/magazineserrano.pt\/broca-viva-na-aldeia-da-broca-trancoso\/\">Broca Viva<\/a>, que anima a aldeia despovoada da Broca. Para F\u00e1tima, num contexto onde \u201ch\u00e1 pouca gente, umas morrem, as novas emigram\u201d, \u00e9 essencial envolver-se em iniciativas que promovam o conv\u00edvio e fortale\u00e7am os la\u00e7os comunit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Com orgulho, partilha que realizou um sonho de inf\u00e2ncia: integrar um rancho folcl\u00f3rico. Sempre adorou dan\u00e7ar e vibrava ao ver os ranchos, mas nunca teve oportunidade devido \u00e0 vida de trabalho e responsabilidades familiares. \u201c\u00c9 um sonho que eu pensava que nunca ia realizar, mas agora realizei.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a sua aldeia e o mundo rural, F\u00e1tima lamenta a falta de aten\u00e7\u00e3o por parte do poder local, especialmente na limpeza e manuten\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos. No que toca \u00e0 agricultura, defende a elimina\u00e7\u00e3o das disparidades salariais entre homens e mulheres e gostaria que os pequenos agricultores recebessem um pre\u00e7o mais justo pelos seus produtos.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"825\" height=\"776\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rita.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-326\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rita.jpg 825w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rita-300x282.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Rita-768x722.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 825px) 100vw, 825px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Ana Rita Sousa, gestora  do espa\u00e7o agroecol\u00f3gico Nativa e membro da Cooperativa Integral de Odemira &#8211; S. Lu\u00eds, Odemira<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Natural do Porto, Rita formou-se em Engenharia do Ambiente e envolveu-se desde cedo no ativismo ecol\u00f3gico, atrav\u00e9s do <a href=\"https:\/\/gaia.org.pt\/\">GAIA \u2013 Grupo de A\u00e7\u00e3o e Interven\u00e7\u00e3o Ambiental<\/a> e da <a href=\"https:\/\/www.stopogm.net\/\">Plataforma Transg\u00e9nicos Fora<\/a>. Em 2009, mudou-se para o Alentejo e instalou-se no <a href=\"https:\/\/montemimo.wordpress.com\/\">Monte Mimo<\/a>, em Alvalade do Sado, mantendo o seu compromisso com o GAIA e com as campanhas em defesa das sementes livres e contra os transg\u00e9nicos. Foi tamb\u00e9m uma das impulsionadoras da <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/p\/Festa-das-Sementes-100057040226442\/\">Festa da Semente<\/a>, que j\u00e1 conta com mais de 12 edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de se tornar agricultora, Rita j\u00e1 conhecia o conceito de agroecologia, tendo realizado v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es em permacultura e participado numa horta comunit\u00e1ria no Porto. No entanto, ao chegar ao Alentejo, deparou-se com um contexto desafiante: \u201cA enxada n\u00e3o trabalhava, as sementes n\u00e3o germinavam\u2026 e depois o Alentejo, em que tudo \u00e9 plano\u201d, o que dificultava a aplica\u00e7\u00e3o do zonamento t\u00edpico da permacultura. Os primeiros anos foram dedicados a construir as bases da nova vida: erguer a casa, aprender a trabalhar a terra, adaptar-se ao territ\u00f3rio \u2014 tudo isto enquanto vivia a experi\u00eancia intensa da maternidade. \u201cFoi uma aprendizagem de tudo e mais alguma coisa, num grande cocktail\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, participou na funda\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/redecooperar.blogspot.com\/\">Rede Cooperar<\/a>, que nasceu de um grupo de jovens m\u00e3es em busca de solu\u00e7\u00f5es para os desafios do quotidiano. A rede evoluiu para um espa\u00e7o de partilha de saberes sobre cultivo, constru\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o de alimentos e gest\u00e3o da \u00e1gua, tornando-se uma plataforma essencial para consolidar a agroecologia como pr\u00e1tica e filosofia de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, a Rede Cooperar criou o sistema de garantia participativa&nbsp;<strong>REPASTO \u2013 Reconhecimento Participado e Solid\u00e1rio<\/strong>, que trouxe \u201cmassa cr\u00edtica\u201d \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da agroecologia. No Monte Mimo, esse sistema permitiu identificar como prioridade a interven\u00e7\u00e3o nas linhas de \u00e1gua, o que levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma paisagem de reten\u00e7\u00e3o h\u00eddrica e ao aumento da produ\u00e7\u00e3o de hort\u00edcolas frescos para venda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, Rita come\u00e7ou a colaborar com as\u00a0<a href=\"https:\/\/amap.movingcause.org\/\">AMAP \u2013 Associa\u00e7\u00f5es para a Manuten\u00e7\u00e3o da Agricultura de Proximidade<\/a>, fornecendo cabazes de produtos frescos diretamente a consumidores, num modelo coletivo e participado. Durante quatro anos, produziu alimentos para cerca de 20 fam\u00edlias. No entanto, o ritmo intenso levou-a a fazer uma pausa: \u201cFoi preciso parar para respirar.\u201d Ainda assim, considera a experi\u00eancia profundamente enriquecedora, pois permitiu-lhe compreender que a agroecologia \u00e9 um processo cont\u00ednuo de aprendizagem e adapta\u00e7\u00e3o ao clima e ao territ\u00f3rio. Al\u00e9m disso, refor\u00e7ou o lado social da agroecologia, promovendo o debate sobre a partilha de tarefas, riscos e decis\u00f5es em coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, Rita gere o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/espaconativa2020\/?locale=pt_BR\">Espa\u00e7o Nativa<\/a>, um caf\u00e9, restaurante e mercearia integrado na <a href=\"https:\/\/www.regenerativa.pt\/\">Cooperativa Integral de Odemira<\/a>. O espa\u00e7o privilegia produtos locais e permite-lhe explorar outra dimens\u00e3o do sistema alimentar: o consumo. Continua assim envolvida na transi\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica, agora a partir do consumo. O facto de a AMAP que dinamizou ter continuado com outro produtor \u00e9, para ela, prova da resili\u00eancia e adaptabilidade da agroecologia.<\/p>\n\n\n\n<p>A maternidade levou Rita a refletir mais profundamente sobre o significado do cuidar na agricultura. Esse per\u00edodo trouxe-lhe um ritmo mais lento e \u00edntimo, mais ligado ao corpo e \u00e0 escuta. Acostumada ao ativismo onde homens e mulheres partilhavam tarefas, sentiu dificuldade em conciliar o desejo de \u201cfazer o mesmo que os homens\u201d com a necessidade de amamentar. Foi um processo exigente de autodescoberta \u2014 mas tamb\u00e9m profundamente transformador.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi dessa experi\u00eancia, e da de outras m\u00e3es, que nasceu a\u00a0Festa da Semente\u00a0\u2014 uma forma de manter o ativismo enquanto cuidavam dos filhos pequenos. Para Rita, o ato de cuidar est\u00e1 no centro da agroecologia: envolve planear para conciliar tempos de vida e de trabalho, estar ao servi\u00e7o da vida e construir coletivamente solu\u00e7\u00f5es para necessidades comuns. Observa que as mulheres est\u00e3o muitas vezes mais ligadas a este cuidar. Nas redes em que participa, s\u00e3o sobretudo mulheres que dinamizam, falam de bem comum e n\u00e3o de recursos. \u201c\u00c9 nas grandes feiras agr\u00edcolas e associa\u00e7\u00f5es dominadas por homens que predomina a l\u00f3gica de controlar recursos e maximizar poder econ\u00f3mico\u201d, observa.<\/p>\n\n\n\n<p>Rita denuncia ainda a invisibilidade do trabalho de cuidar, especialmente na agricultura. \u201cQuando se olha para um casal produtor, a mulher, que passa mais tempo a planear, a cuidar das sementes ou a fazer tarefas menos vis\u00edveis, muitas vezes nem \u00e9 reconhecida como produtora.\u201d Para ela, esse reconhecimento \u00e9 essencial para valorizar o papel das mulheres nos sistemas alimentares locais e no mundo rural.<\/p>\n\n\n\n<p>Defensora de sistemas alimentares locais, colaborativos e constru\u00eddos \u201cde baixo para cima\u201d, acredita na cria\u00e7\u00e3o de redes cooperativas e comunit\u00e1rias que apoiem os sistemas vivos e estejam ao servi\u00e7o da vida. Um dos seus sonhos \u2014 e proposta de pol\u00edtica p\u00fablica \u2014 \u00e9 transformar as \u00e1reas de regadio em\u00a0paisagens de reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, promovendo uma l\u00f3gica de cuidado com os bens comuns e com o territ\u00f3rio.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"777\" height=\"681\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Paula.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1380\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Paula.jpg 777w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Paula-300x263.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Paula-768x673.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 777px) 100vw, 777px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Paula Serrano, agricultora agroecol\u00f3gica na AMAP Quinta Maravilha \u2013 Algeruz, Palmela, Set\u00fabal<\/mark><\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/quintamaravilha\/\">Quinta Maravilha<\/a> nasceu h\u00e1 sete anos e meio do desejo profundo de Paula em mudar de vida e oferecer ao filho \u201ca possibilidade de viver no campo\u201d. Inspirada pelas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia ao lado da av\u00f3 Lucinda, agricultora, e movida pela vontade de \u201cfazer algo de concreto pelo mundo\u201d, Paula escolheu dedicar-se \u00e0 agroecologia. Desde o in\u00edcio, sabia que este projeto n\u00e3o seria apenas para a sua fam\u00edlia: \u201cSempre me fez sentido ter mais pessoas envolvidas\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o comunit\u00e1ria ganhou forma com a cria\u00e7\u00e3o de uma\u00a0<a href=\"https:\/\/amap.movingcause.org\/\">AMAP \u2013 Associa\u00e7\u00e3o para a Manuten\u00e7\u00e3o da Agricultura de Proximidade<\/a>, num processo constru\u00eddo gradualmente e em v\u00e1rias etapas. Nas AMAP, os consumidores s\u00e3o chamados de\u00a0<em>coprodutores<\/em>, pois, como explica Paula, \u201cpartilham connosco as responsabilidades da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola\u201d. Participam em assembleias sazonais (Outono\/Inverno e Primavera\/Ver\u00e3o) e nas \u201cajudadas\u201d mensais \u2014 encontros que combinam trabalho no campo com momentos de conv\u00edvio. Para Paula, este modelo transforma a rela\u00e7\u00e3o com a comida: \u201c\u00c9 completamente diferente perceber de onde vem o alimento, os processos e o trabalho que envolve produzi-lo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a Quinta Maravilha \u00e9 gerida por tr\u00eas agricultoras: Paula, Ana e Maggie, sendo que duas trabalham a tempo parcial. No in\u00edcio, tamb\u00e9m participava Henrique, que agora se dedica sobretudo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, colaborando pontualmente. A quinta inclui uma cozinha coletiva, pequenas casas para volunt\u00e1rios e visitantes, e prepara-se para abrir uma cozinha comunit\u00e1ria, que permitir\u00e1 transformar produtos e envolver outros produtores e a comunidade local.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto mulher agricultora, Paula tem enfrentado v\u00e1rios desafios. Apesar da inten\u00e7\u00e3o inicial de dividir as tarefas de forma equitativa, a distribui\u00e7\u00e3o acabou por seguir as compet\u00eancias de cada um. \u201cNo in\u00edcio, n\u00f3s faz\u00edamos as mondas, ele trabalhava com as m\u00e1quinas. N\u00e3o me orgulho disso\u201d, admite.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, sente o peso da gest\u00e3o da quinta, assumindo a planifica\u00e7\u00e3o \u2014 uma tarefa essencial numa produ\u00e7\u00e3o diversificada, onde se alia funcionalidade e est\u00e9tica: \u201cA nossa horta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma horta, queremos que seja quase um jardim.\u201d Este papel exige-lhe aten\u00e7\u00e3o constante \u00e0 sustentabilidade econ\u00f3mica e ao equil\u00edbrio entre o trabalho, a vida familiar e outras atividades que tamb\u00e9m valoriza. A maternidade refor\u00e7ou a sua vontade de criar um projeto duradouro, que concilie viabilidade econ\u00f3mica com qualidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Para responder a estas exig\u00eancias, a Quinta tem apostado na partilha de responsabilidades, na diversifica\u00e7\u00e3o das fontes de rendimento e num planeamento cuidadoso das atividades. Estar num coletivo, diz Paula, \u00e9 essencial para pensar estrat\u00e9gias e encontrar solu\u00e7\u00f5es: \u201cPara que todos possamos ultrapassar as nossas necessidades.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na AMAP, o protagonismo feminino \u00e9 evidente \u2014 n\u00e3o s\u00f3 entre as agricultoras, mas tamb\u00e9m entre os coprodutores, com muitas mulheres a liderarem a organiza\u00e7\u00e3o das ajudadas e a coordena\u00e7\u00e3o das tarefas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto aos apoios p\u00fablicos, Paula lamenta que \u201cos financiamentos n\u00e3o s\u00e3o pensados para a escala de agricultura que fazemos\u201d, j\u00e1 que privilegiam monoculturas e grandes explora\u00e7\u00f5es. Sem acesso a esses apoios, o projeto encontrou for\u00e7a no coletivo, na vizinhan\u00e7a e na fam\u00edlia. \u201cSe n\u00e3o fosse isso, n\u00e3o estar\u00edamos onde estamos\u201d, reconhece.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTenho mesmo muito orgulho nesta AMAP e sinto que, enquanto coletivo, estamos a fazer um grande trabalho\u201d, afirma. Para Paula, o apoio m\u00fatuo, a aprendizagem partilhada e a liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra s\u00e3o a ess\u00eancia do projeto. \u201cEstamos a criar uma bolhinha que se pode espalhar\u201d, conclui.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Natalia-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1071\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Natalia Varela, apicultora no projeto Esp\u00edrito da Colmea &#8211; Laxe, Palas de Rei, Lugo<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Natalia cresceu numa fam\u00edlia de moleiros e o seu caminho at\u00e9 \u00e0 apicultura come\u00e7ou quase por acaso. Quando regressou \u00e0 Galiza, em 2013, decidiu restaurar o antigo moinho da fam\u00edlia e, nesse processo, descobriu abelhas selvagens a nidificar nas paredes. Sem qualquer experi\u00eancia pr\u00e9via, iniciou-se com duas colmeias, guiada apenas pela curiosidade e pela intui\u00e7\u00e3o. Assim come\u00e7ou a sua aventura num universo que, segundo descreve, \u00e9 fechado e dominado por homens, o que dificultou muito o seu processo de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, foi-se formando atrav\u00e9s de cursos e da ajuda pontual de apicultores locais. Em 2023, deu um passo decisivo e profissionalizou a sua atividade. Para Natalia, as abelhas s\u00e3o muito mais do que um meio de subsist\u00eancia:\u00a0<strong>\u201c<\/strong>A ess\u00eancia do projeto \u00e9 sensibilizar para o facto de que somos todos parte de um mesmo sistema. As abelhas est\u00e3o intimamente ligadas ao ambiente. Sem elas, n\u00e3o h\u00e1 alimentos \u2014 polinizam cerca de 77% do que comemos. Se os seus habitats forem destru\u00eddos, estamos a trabalhar contra n\u00f3s pr\u00f3prios.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Aprecia profundamente a rela\u00e7\u00e3o entre as abelhas e o ecossistema, e alerta para os efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, que est\u00e3o a desregular os ciclos naturais e a afetar o comportamento das col\u00f3nias. \u201cAntes, castanheiros, salgueiros e silvas floresciam em sincronia. Agora, tudo \u00e9 imprevis\u00edvel.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da sua import\u00e2ncia, a apicultura continua a ser desvalorizada na Galiza, afirma. As pol\u00edticas p\u00fablicas favorecem setores considerados mais rent\u00e1veis, como a suinicultura ou a avicultura, enquanto a apicultura \u00e9 vista como uma atividade rom\u00e2ntica, sem viabilidade econ\u00f3mica. \u201cA prioridade vai para as grandes ind\u00fastrias que prometem empregos a curto prazo, mas que, ao fim de 30 anos, deixam apenas terra queimada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cr\u00edtica estende-se \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da paisagem galega, marcada pela expans\u00e3o de monoculturas como o eucalipto e pela presen\u00e7a de multinacionais da celulose. Para Natalia, estas pr\u00e1ticas s\u00e3o incompat\u00edveis com atividades produtivas sustent\u00e1veis e contribuem para o despovoamento rural. \u201cEstamos a transformar o territ\u00f3rio numa terra de sacrif\u00edcio, como aconteceu durante s\u00e9culos na Am\u00e9rica Latina.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O setor ap\u00edcola, diz, \u00e9 profundamente masculino. \u201cSou a \u00fanica mulher que gere um projeto ap\u00edcola sozinha.\u201d As restantes mulheres envolvidas na apicultura fazem-no em contextos familiares, o que as torna menos vis\u00edveis. Nas reuni\u00f5es sobre temas cruciais, como o combate \u00e0 vespa asi\u00e1tica, as mulheres s\u00e3o minoria e enfrentam atitudes condescendentes: \u201cSou frequentemente subestimada. Perguntam-me se trabalho mesmo sozinha \u2014 perguntas que n\u00e3o fariam a um homem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Denuncia tamb\u00e9m o individualismo e a falta de colabora\u00e7\u00e3o entre apicultores, apesar do elevado n\u00famero de associa\u00e7\u00f5es existentes. \u201cQuando partilho um estudo ou um m\u00e9todo novo, os meus coment\u00e1rios s\u00e3o muitas vezes ignorados. A minha experi\u00eancia torna-se invis\u00edvel.\u201d Ao longo do tempo, sentiu necessidade de adaptar o seu comportamento: suavizou o tom, modulou a linguagem, aprendeu a \u201cfalar de determinada forma para ser levada a s\u00e9rio\u201d. Mas reconhece o custo emocional desse esfor\u00e7o: \u201cAgora estou a tentar desaprender esses comportamentos e a trabalhar de outra forma.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos obst\u00e1culos, Natalia v\u00ea com esperan\u00e7a o surgimento de novas iniciativas rurais lideradas por mulheres, que est\u00e3o a transformar os paradigmas econ\u00f3micos. \u201cEstas mulheres promovem a coopera\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o entre produtoras, em vez da competi\u00e7\u00e3o e do isolamento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Defende que as\u00a0cooperativas devem estar no centro do desenvolvimento rural\u00a0e trabalha para criar redes de apoio entre mulheres. \u201cApesar de estarmos sobrecarregadas com os nossos projetos individuais, estamos a construir algo em conjunto e isso d\u00e1-me esperan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"951\" height=\"952\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Raquel-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1090\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Raquel-1.jpg 951w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Raquel-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Raquel-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Raquel-1-768x769.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 951px) 100vw, 951px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Raquel Garc\u00eda Rodr\u00edguez, agricultora da cooperativa Labrecos &#8211; Dorda\u00f1o, Oza-Cesuras, A Coru\u00f1a<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Raquel integra a <a href=\"http:\/\/marcabiosfera.marinasbetanzos.gal\/es\/labrecos\/\">Labrecos<\/a>, uma cooperativa de trabalho situada no munic\u00edpio de Oza-Cesuras, na prov\u00edncia da Corunha. Trata-se de um projeto familiar que alia agricultura biol\u00f3gica, com e sem estufas, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de gado, numa abordagem regenerativa e circular. Trabalha com o seu companheiro e cunhado, com o apoio da sogra, partilhando uma vis\u00e3o comum: regenerar a terra e produzir alimentos de qualidade, sem depender de inputs externos.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7aram apenas com hortas, mas rapidamente introduziram animais, n\u00e3o s\u00f3 para diversificar a produ\u00e7\u00e3o com carne, mas tamb\u00e9m pelo seu papel essencial na fertiliza\u00e7\u00e3o org\u00e2nica dos solos e no pastoreio regenerativo. O cuidado com a terra est\u00e1 no centro da sua pr\u00e1tica. \u201cAs couves podem atingir o mesmo peso e as cenouras o mesmo rendimento que na agricultura convencional, desde que se cuide bem da terra\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Raquel acredita que muitas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas atuais sacrificam a sa\u00fade do solo em nome da produtividade imediata. Defende que o modelo regenerativo \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 mais sustent\u00e1vel, como igualmente eficiente. \u201cO mito de que a agricultura biol\u00f3gica \u00e9 cara ou pouco produtiva \u00e9 infundado\u201d, diz, criticando a depend\u00eancia de qu\u00edmicos e fertilizantes. Para ela, optar por m\u00e9todos regenerativos \u00e9 tamb\u00e9m uma escolha \u00e9tica, de respeito pela natureza e pela sazonalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da inova\u00e7\u00e3o e circularidade do seu modelo, Raquel reconhece que o caminho tem sido dif\u00edcil. A burocracia, diz, parece desenhada apenas para explora\u00e7\u00f5es especializadas. \u201cQuando se tem uma horta, vacas e ovelhas, parece que enlouquecem com a papelada.\u201d A falta de flexibilidade para apoiar modelos integrados penaliza pequenas explora\u00e7\u00f5es como a Labrecos, que procuram produzir de forma sustent\u00e1vel e respeitadora do ambiente. Al\u00e9m disso, denuncia as amea\u00e7as externas colocadas pelas grandes ind\u00fastrias e\u00f3licas e de celulose, que colocam em risco o meio rural. \u201cA defesa do campo \u00e9 a nossa maior luta neste momento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Raquel, este projeto \u00e9 muito mais do que um trabalho, \u00e9 um modo de vida. \u201cVer as plantas crescerem, as colheitas correrem bem e levar aos clientes produtos que os surpreendem \u00e9 uma gratifica\u00e7\u00e3o que nenhum outro trabalho me d\u00e1.\u201d Envolveu os filhos neste estilo de vida, transmitindo-lhes valores ligados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 biodiversidade e ao respeito pela terra. Tamb\u00e9m procura sensibilizar os consumidores para a import\u00e2ncia do consumo local e sazonal.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu percurso na cooperativa foi gradual. Trabalhava como rececionista numa oficina de autom\u00f3veis, enquanto o companheiro e o cunhado j\u00e1 produziam em modo biol\u00f3gico. Em 2012, ap\u00f3s o nascimento do primeiro filho, pediu uma licen\u00e7a de amamenta\u00e7\u00e3o. A empresa recusou os quinze dias a que tinha direito. \u201cQuando se est\u00e1 a amamentar, uma hora de folga por dia n\u00e3o vale nada.\u201d Continuou no emprego, mas ap\u00f3s o segundo filho, decidiu mudar de vida. \u201cN\u00e3o queria uma vida em que n\u00e3o os via, em que tinham de ser cuidados por outras pessoas. Sa\u00eda de casa \u00e0s 8h30, voltava ao meio-dia com eles a dormir a sesta, e regressava \u00e0s 20h00 ou mais tarde, se houvesse reuni\u00f5es.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, olhando para tr\u00e1s, admite que nunca imaginou que a agricultura seria o seu caminho. \u201cSempre houve vacas em casa, mas tentei manter-me afastada. Em muitos s\u00edtios, se estudamos e podemos procurar trabalho fora, somos algu\u00e9m. Se ficamos no campo, parece que n\u00e3o somos ningu\u00e9m.\u201d Recorda as palavras que ouviu tantas vezes:\u00a0\u201cV\u00e1-se embora, rapariga, o campo n\u00e3o tem futuro.\u201d\u00a0Mas Raquel acredita no contr\u00e1rio: \u201cO campo tem um grande futuro. \u00c9 um projeto de vida que quero que os meus filhos valorizem \u2014 e, se quiserem, que sigam.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"890\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Maria-Jose-1024x890.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1111\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Maria-Jose-1024x890.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Maria-Jose-300x261.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Maria-Jose-768x667.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Maria-Jose.jpg 1085w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Mar\u00eda Jos\u00e9 Tallon, agricultora e oficina de transforma\u00e7\u00e3o Trasdeza Natur &#8211; Cardigonde, Cortegada, Silleda, Pontevedra<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00eda Jos\u00e9 \u00e9 a fundadora da <a href=\"https:\/\/www.trasdezanatur.com\/\">Trasdeza Natur<\/a>, uma empresa dedicada \u00e0 agricultura biol\u00f3gica e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de produtos hort\u00edcolas, frutas e legumes, com foco na inova\u00e7\u00e3o e na sustentabilidade. Embora tenha crescido numa fam\u00edlia com uma pequena horta para consumo pr\u00f3prio, a sua verdadeira liga\u00e7\u00e3o ao campo surgiu apenas mais tarde, ap\u00f3s os estudos e v\u00e1rios anos a trabalhar num escrit\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o de mudar de vida foi motivada pela procura de uma alternativa profissional e pela vontade de trabalhar por conta pr\u00f3pria, especialmente ap\u00f3s enfrentar o desemprego. Formou-se em agricultura biol\u00f3gica, frequentando diversos cursos. \u201cFoi uma mudan\u00e7a radical, de estar fechada num escrit\u00f3rio para trabalhar ao ar livre, ao sol, em contacto com a terra. \u00c9 completamente diferente e, ao mesmo tempo, muito gratificante\u201d, partilha.<\/p>\n\n\n\n<p>O cora\u00e7\u00e3o do seu projeto \u00e9 a\u00a0desidrata\u00e7\u00e3o de fruta, realizada com desidratadores solares alimentados por energia renov\u00e1vel. Em parceria com a Universidade de Santiago de Compostela, desenvolve tecnologias para otimizar este processo. \u201cO sol \u00e9 a nossa principal fonte de energia e, quando n\u00e3o h\u00e1 sol, usamos energia fotovoltaica. Assim conseguimos conservar os alimentos sem aditivos, conservantes ou a\u00e7\u00facar \u2014 \u00e9 apenas fruta natural\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia surgiu de forma pessoal: um dos seus filhos recusava comer fruta fresca. Mar\u00eda Jos\u00e9 come\u00e7ou a investigar m\u00e9todos de desidrata\u00e7\u00e3o e fez um curso na \u00e1rea. \u201cComecei com um pequeno desidratador el\u00e9trico em casa. A fruta ficava concentrada, quase como uma goma e ele come\u00e7ou a gostar\u201d, recorda com um sorriso. Com o tempo, alargou a pr\u00e1tica aos produtos da horta, oferecendo um produto 100% natural, sem aditivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do sucesso, reconhece os desafios. A n\u00edvel administrativo, os pequenos projetos enfrentam grandes obst\u00e1culos para obter apoios e visibilidade. \u201cAs pol\u00edticas favorecem os grandes projetos agroindustriais e as grandes infraestruturas. Os pequenos t\u00eam de lutar muito mais para serem vistos. \u00c9 muito dif\u00edcil come\u00e7ar na agricultura sem herdar uma quinta. E s\u00e3o precisamente os pequenos projetos que deviam ser apoiados e valorizados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outro desafio tem sido a desigualdade de g\u00e9nero no meio rural. Embora reconhe\u00e7a avan\u00e7os, afirma que as mulheres ainda t\u00eam de se esfor\u00e7ar mais para serem reconhecidas. \u201cOs homens s\u00e3o sempre os primeiros a ser procurados, os \u2018homens bons\u2019. N\u00f3s temos de lutar mais, mas somos perfeitamente capazes de liderar. Liderar \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de emancipa\u00e7\u00e3o. As portas abrem-se, mesmo que tenhamos de procurar mais por sermos mulheres.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Mar\u00eda Jos\u00e9, o futuro da agricultura passa pela sustentabilidade e pelo respeito pela terra. \u201cCuidar do ambiente \u00e9 essencial. Quem tem terra tem uma responsabilidade \u2014 o capital n\u00e3o pode estar acima da terra.\u201d Acredita firmemente que a agricultura ecol\u00f3gica deve prevalecer, por oferecer alimentos saud\u00e1veis, livres de qu\u00edmicos e pesticidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A fruta desidratada biol\u00f3gica, diz, \u00e9 uma alternativa natural aos produtos processados. \u201cMant\u00e9m todos os minerais e vitaminas. \u00c9 um produto muito saud\u00e1vel. O que eu ofere\u00e7o \u00e9 sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Iolanda-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1115\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Iolanda Otero, membro da Comunidade de Montes Vecinales em Mano Com\u00fan de Tameiga &#8211; Mos, Pontevedra<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Iolanda \u00e9 membro da Xunta Reitora da Comunidad de Montes Veci\u00f1ais en Man Com\u00fan de Tameiga, um parque florestal gerido coletivamente para uso e usufruto da comunidade local. A sua entrada ativa na dire\u00e7\u00e3o surgiu como resposta a uma amea\u00e7a concreta: uma empresa privada pretendia apropriar-se da floresta para construir um grande centro comercial e campos de futebol. At\u00e9 ent\u00e3o, Iolanda era apenas uma associada passiva, mas a possibilidade de perder aquele territ\u00f3rio, carregado de mem\u00f3rias e significado, levou-a a dar o passo. Quis defender a floresta e, ao mesmo tempo, reativar os projetos ambientais da comunidade, que tinham sido adiados devido ao conflito e \u00e0 escassez de recursos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA silvicultura comunit\u00e1ria tem uma longa hist\u00f3ria, mas \u00e9 um mundo historicamente patriarcal\u201d, afirma. Recorda que, tradicionalmente, eram os homens, chefes de fam\u00edlia, que ocupavam os cargos de decis\u00e3o e gest\u00e3o, enquanto as mulheres, embora respons\u00e1veis pelo trabalho nas hortas e pelo cuidado da terra, eram exclu\u00eddas das assembleias e dos processos deliberativos.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o feminina foi durante muito tempo limitada por estruturas sociais que priorizavam as responsabilidades dom\u00e9sticas em detrimento da vida comunit\u00e1ria. \u201cAs assembleias realizavam-se aos domingos de manh\u00e3, quando as mulheres estavam ocupadas a preparar o almo\u00e7o da fam\u00edlia\u201d, exemplifica, mostrando como o sistema perpetuava a exclus\u00e3o. Hoje, embora a presen\u00e7a feminina na assembleia de vizinhos tenha aumentado para cerca de 33-34%, e duas mulheres integrem a dire\u00e7\u00e3o (ela pr\u00f3pria como tesoureira e outra como secret\u00e1ria), esse avan\u00e7o foi fruto de um trabalho cont\u00ednuo de sensibiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que assumiu fun\u00e7\u00f5es, Iolanda tem-se empenhado em promover a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nas decis\u00f5es da comunidade. \u201cPrecisamos de mais mulheres nas assembleias e nos conselhos. A sua presen\u00e7a \u00e9 essencial\u201d, defende, sublinhando a import\u00e2ncia de alcan\u00e7ar a paridade.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos progressos, persistem barreiras estruturais. A falta de partilha equitativa das tarefas de cuidado limita o tempo que muitas mulheres podem dedicar \u00e0 gest\u00e3o comunit\u00e1ria. \u201cAs reuni\u00f5es continuam a ser marcadas em hor\u00e1rios que excluem muitas mulheres, e somos n\u00f3s que continuamos a carregar o peso das responsabilidades dom\u00e9sticas\u201d, observa. Esta realidade perpetua desigualdades, mesmo em espa\u00e7os que se querem inclusivos.<\/p>\n\n\n\n<p>A tentativa de tornar vis\u00edvel o trabalho das mulheres tamb\u00e9m enfrenta resist\u00eancia. \u201cA palavra de uma mulher n\u00e3o tem o mesmo peso que a de um homem\u201d, lamenta. As suas opini\u00f5es s\u00f3 s\u00e3o ouvidas quando validadas por estudos ou cargos formais. Esta desvaloriza\u00e7\u00e3o afeta n\u00e3o s\u00f3 a sua influ\u00eancia nas decis\u00f5es, mas tamb\u00e9m a motiva\u00e7\u00e3o para assumir pap\u00e9is de lideran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, Iolanda acredita firmemente na import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o feminina nos movimentos sociais. \u201cNas mobiliza\u00e7\u00f5es, a maioria s\u00e3o mulheres. S\u00e3o elas que cuidam do mato, que trabalham a terra, mas os espa\u00e7os de decis\u00e3o continuam nas m\u00e3os dos homens.\u201d Essa tradi\u00e7\u00e3o de mobiliza\u00e7\u00e3o feminina na sua regi\u00e3o \u00e9, para ela, uma for\u00e7a que deve ser reconhecida e valorizada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 cansativo, mas ver a comunidade unida compensa todos os sacrif\u00edcios\u201d, afirma com convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Iolanda critica tamb\u00e9m as pol\u00edticas p\u00fablicas que, segundo ela, est\u00e3o longe de promover um com\u00e9rcio local justo e uma verdadeira sustentabilidade. \u201cEmpurram-nos para as cidades. As zonas rurais s\u00e3o promovidas na teoria, mas esquecidas na pr\u00e1tica.\u201d Defende pol\u00edticas ambientais mais respeitadoras, que permitam \u00e0s pessoas viver nos seus territ\u00f3rios com dignidade, sem serem amea\u00e7adas por macroprojetos que destroem o tecido social e ecol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>E conclui com um desejo claro: \u201cGostava de ver muito mais mulheres nas comunidades, mais mulheres presidentes das comunidades florestais, mais presen\u00e7a feminina nos espa\u00e7os de decis\u00e3o.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"812\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Concha-1024x812.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1116\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Concha-1024x812.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Concha-300x238.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Concha-768x609.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Concha.jpg 1189w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Concha de B\u00e9rtolo, criadora de gado e camponesa &#8211; Castro, Carballedo, Lugo<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Concha descreve-se como uma mulher com uma \u201cprofiss\u00e3o inventada e sem solu\u00e7\u00e3o de continuidade\u201d no mundo agr\u00edcola. O seu trabalho principal \u00e9 cuidar dos animais, o que hoje se chama pecu\u00e1ria, mas recusa separar essa atividade da agricultura. \u201cAs vacas dependem dos prados, e os prados precisam das vacas para se manterem\u201d, afirma. Para ela, tudo est\u00e1 interligado num ciclo que inclui tamb\u00e9m os caminhos rurais, \u201cque se perdem se n\u00e3o forem percorridos\u201d. Com cerca de 100 vacas e 100 hectares de terra, \u00e9 tamb\u00e9m produtora de queijo.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra vai muito al\u00e9m da subsist\u00eancia. \u00c9 um territ\u00f3rio que tentaram afastar-lhe, enviando-a para longe com a inten\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o regressasse. Mas voltou, n\u00e3o por nostalgia, mas por consci\u00eancia. Percebeu que, ao contr\u00e1rio do que via noutros locais, onde abundavam eventos e ofertas culturais, a sua terra natal carecia de recursos e oportunidades. Para Concha, \u00e9 essencial responder \u00e0s necessidades onde elas surgem, n\u00e3o em criar novas depend\u00eancias. Esta vis\u00e3o, profundamente pr\u00e1tica, est\u00e1 tamb\u00e9m enraizada numa \u00e9tica do cuidado e numa reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o papel feminino, conceitos que defende e questiona a partir da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rejeita a ideia de que a sua vis\u00e3o representa um regresso ao passado. \u201cO passado \u00e9 um degrau para o futuro, n\u00e3o um lugar para repetir\u201d, afirma. Apesar das adversidades, a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra e ao ambiente \u00e9 inquebrant\u00e1vel. Descreve a sua alma como \u201ccolada \u00e0 terra negra e gorda, carregada de orvalho\u201d. A sua felicidade reside em estar no territ\u00f3rio onde vive, abra\u00e7ar o presente e construir o futuro a partir da\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>Concha reflete tamb\u00e9m sobre a condi\u00e7\u00e3o das mulheres do seu tempo. Recorda que, ao contr\u00e1rio dos homens, eram elas que tinham de remendar as roupas, enquanto os homens recebiam tudo novo. Uma desigualdade comum, mas que nunca aceitou. V\u00ea as mulheres como o verdadeiro pilar do mundo rural: \u201cQuando uma mulher morre, muitas explora\u00e7\u00f5es fecham, porque n\u00e3o h\u00e1 quem assuma as tarefas essenciais.\u201d \u00c9 o reflexo do peso que as mulheres carregam \u2014 um peso que, segundo ela, n\u00e3o deve ser romantizado como um sacrif\u00edcio natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Critica ainda a tend\u00eancia para a autoexplora\u00e7\u00e3o, que considera normalizada entre as mulheres da sua comunidade. Muitas trabalham longas horas, acumulando responsabilidades profissionais, familiares e dom\u00e9sticas. Para Concha, esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel. Defende a necessidade de facilitar a transi\u00e7\u00e3o geracional, incentivar a improvisa\u00e7\u00e3o e promover a autonomia das novas gera\u00e7\u00f5es. \u201cO futuro depende da sua capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, aponta a hipocrisia que observa nas decis\u00f5es t\u00e9cnicas e pol\u00edticas, sobretudo no campo ecol\u00f3gico. Numa reuni\u00e3o em Santiago, defendeu que a produ\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica vai muito al\u00e9m da alimenta\u00e7\u00e3o: envolve a preserva\u00e7\u00e3o das paisagens, dos territ\u00f3rios e dos saberes tradicionais. Lamenta, no entanto, que esses valores estejam a ser substitu\u00eddos por interesses econ\u00f3micos que promovem a macroagricultura e os monocultivos em larga escala. Para ela, \u00e9 fundamental ouvir quem vive e trabalha no campo: \u201cOs parlamentos foram criados para dar voz a quem constr\u00f3i o presente e o futuro a partir da sua realidade quotidiana.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"956\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Carmen-1-1024x956.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1171\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Carmen-1-1024x956.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Carmen-1-300x280.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Carmen-1-768x717.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/Carmen-1.jpg 1031w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Carmen S\u00e1nchez, empresa de algas Galuri\u00f1a \u2013 Esteiro, Muros, A Coru\u00f1a<\/mark><\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Carmen \u00e9 fundadora da <a href=\"https:\/\/galurina.com\/\">Galuri\u00f1a<\/a>, uma empresa dedicada \u00e0 recolha e transforma\u00e7\u00e3o de algas marinhas, um recurso que, no in\u00edcio, lhe era completamente desconhecido, mas que, ap\u00f3s anos de forma\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o, se tornou o pilar do seu neg\u00f3cio. \u201cFiquei espantada quando ouvi falar destas plantas e do potencial que t\u00ednhamos aqui, t\u00e3o desconhecido e t\u00e3o valioso\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua trajet\u00f3ria n\u00e3o foi f\u00e1cil. Em 2012, deixou para tr\u00e1s uma carreira no setor t\u00eaxtil e decidiu recome\u00e7ar do zero, numa \u00e1rea totalmente nova. Os primeiros anos como trabalhadora independente foram marcados por dificuldades econ\u00f3micas e burocr\u00e1ticas. \u201cPassei por muitos altos e baixos, mas sempre soube que queria viver no campo e criar as minhas filhas neste ambiente\u201d, explica. Inovar em projetos como o seu implica enfrentar uma administra\u00e7\u00e3o que muitas vezes n\u00e3o compreende o seu valor, al\u00e9m de suportar per\u00edodos sem rendimento, a menos que se tenha outro trabalho ou apoio familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o de empreender no meio rural trouxe tamb\u00e9m o confronto com desigualdades de g\u00e9nero ainda muito presentes. Carmen sublinha que, mesmo quando lideram projetos empresariais, as mulheres continuam a carregar uma parte desproporcional das responsabilidades dom\u00e9sticas e familiares. Embora as suas filhas j\u00e1 sejam independentes, reconhece que a liga\u00e7\u00e3o ao lar nunca desaparece por completo. \u201cAs mulheres n\u00e3o est\u00e3o aqui para tomar conta, estamos aqui para partilhar. Mas este sentido de responsabilidade foi-nos incutido desde pequenas e temos de romper com ele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do tempo, aprendeu a delegar e a libertar-se de tarefas que n\u00e3o eram exclusivamente suas. \u201cUm dia, perguntei a mim pr\u00f3pria o que estava a fazer. Decidi parar. Aos poucos, os outros come\u00e7aram a assumir as suas responsabilidades. Muitas vezes, somos n\u00f3s que perpetuamos esse fardo\u201d, reflete. Para Carmen, este processo \u00e9 essencial para que as mulheres possam avan\u00e7ar e focar-se nos seus pr\u00f3prios objetivos.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua abordagem ao neg\u00f3cio reflete um compromisso profundo com a sustentabilidade e com a comunidade local. Para ela, o crescimento n\u00e3o se mede apenas em vendas, mas no impacto positivo que se gera no territ\u00f3rio. \u201cPara al\u00e9m dos produtos, h\u00e1 uma vida que temos de cuidar. A \u00e1gua \u00e9 uma necessidade, se n\u00e3o a protegermos agora, vai desaparecer mais depressa do que pensamos.\u201d Esta vis\u00e3o inclui tamb\u00e9m um apelo \u00e0 a\u00e7\u00e3o coletiva: promover assembleias de bairro e exigir transpar\u00eancia nas decis\u00f5es que afetam o territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como mulher rural, Carmen reconhece os obst\u00e1culos estruturais e culturais que ainda limitam a participa\u00e7\u00e3o plena das mulheres nas comunidades. \u201cN\u00e3o podemos aceitar decis\u00f5es tomadas por quem n\u00e3o conhece a nossa realidade\u201d, afirma com firmeza. Defende um modelo de lideran\u00e7a mais inclusivo, onde as vozes locais, especialmente as femininas, sejam ouvidas, respeitadas e valorizadas.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/?page_id=414\">voltar atr\u00e1s<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Fernanda-foto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1548\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Fernanda Mateus, agricultora em agroecologia e membro da associa\u00e7\u00e3o BioEco &#8211; Raba\u00e7as, Oleiros, Castelo Branco<\/mark><\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fernanda, filha de emigrantes, nasceu em Fran\u00e7a e s\u00f3 teve contacto com a agricultura aos sete anos, quando se mudou para Portugal para viver com os av\u00f3s. Cresceu numa aldeia onde a av\u00f3 era agricultora e, desde cedo, teve a oportunidade de observar de perto o trabalho no campo, ainda marcado por muitos saberes ancestrais. \u201cPouco a pouco, apaixonei-me pelas plantas, pelos animais\u2026 apaixonei-me por esta vida campestre, esta vida rural.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, estudou em Castelo Branco e, movida por essa paix\u00e3o, escolheu o curso superior de Agronomia. Trabalhou durante v\u00e1rios anos no aconselhamento t\u00e9cnico a agricultores, primeiro na produ\u00e7\u00e3o integrada e depois na agricultura biol\u00f3gica. No entanto, perto dos 50 anos, decidiu mudar radicalmente de vida: deixou o litoral e regressou ao interior para recuperar as terras da fam\u00edlia, na aldeia de Raba\u00e7as, no concelho de Oleiros, entre serras.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou por viver nos arredores de Castelo Branco, onde a fam\u00edlia reside, e a\u00ed cultivou um pequeno quintal. Mas o verdadeiro sonho era regressar \u00e0 aldeia. Limpou terrenos, plantou \u00e1rvores, restaurou a casa antiga e enfrentou desafios como o grande inc\u00eandio de 2020, que destruiu parte da propriedade. Hoje, dedica-se ao cultivo de uma grande diversidade de hort\u00edcolas, \u00e1rvores de fruto e um olival tradicional, tudo em pequenas parcelas e terrenos acidentados, privilegiando variedades locais e resistentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos, foi aprofundando conhecimentos em v\u00e1rias abordagens da agricultura sustent\u00e1vel \u2014 biol\u00f3gica, biodin\u00e2mica, permacultura, agricultura natural e, mais recentemente, sintr\u00f3pica. No entanto, nunca se prendeu a uma \u00fanica corrente. Para Fernanda, agricultura sustent\u00e1vel \u00e9 \u201caquela que respeita a terra, os animais, o ambiente e, acima de tudo, as pessoas.\u201d Defende a recupera\u00e7\u00e3o dos saberes antigos e das variedades tradicionais, lamentando a perda de muitas delas: \u201cChegaram as sementes novas, mais produtivas, e fomos perdendo as nossas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a diferen\u00e7a entre agricultura convencional e sustent\u00e1vel, sublinha que a primeira \u00e9 mais r\u00e1pida e exige menos conhecimento, enquanto a segunda requer equil\u00edbrio, por exemplo, entre pragas e predadores naturais. \u201cRespeitar a natureza \u00e9 fundamental.\u201d Para Fernanda, cultivar de forma sustent\u00e1vel \u00e9 um ato de amor: \u00e0 terra, \u00e0s plantas, aos antepassados e aos consumidores. \u201cQuando cultivo com qualidade, estou a respeitar-me a mim, ao ambiente e a quem vai comer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhece que o trabalho agr\u00edcola \u00e9 exigente, mas para ela \u00e9 profundamente apaixonante. Lamenta, no entanto, a falta de valoriza\u00e7\u00e3o dos pequenos agricultores e dos alimentos de qualidade. \u201cEnquanto existir esta mentalidade da quantidade e do bonito, nunca se vai valorizar verdadeiramente a agricultura sustent\u00e1vel.\u201d Acredita que \u00e9 a pequena agricultura que, de facto, alimenta o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca sentiu preconceito por ser mulher, nem como t\u00e9cnica nem como agricultora. Destaca o esp\u00edrito de entreajuda que encontrou tanto na cidade como na aldeia, onde os vizinhos partilham saberes e ajudam sempre que podem. Reconhece, contudo, que h\u00e1 tarefas fisicamente exigentes, o que pode ser um desafio para as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Observa com esperan\u00e7a o regresso de jovens \u00e0s terras, sobretudo netos de antigos propriet\u00e1rios, que recuperam olivais e medronhais, embora menos na horticultura comercial. Nota tamb\u00e9m o surgimento de iniciativas inovadoras, que \u201ctrazem vida nova a estas zonas rurais e um pouco esquecidas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fernanda acredita que muitos saberes agr\u00edcolas se perderam, sobretudo ap\u00f3s as grandes vagas de emigra\u00e7\u00e3o dos anos 60. \u201cNas aldeias, quem trabalhava no campo eram, essencialmente, mulheres\u201d, recorda. Muitas dessas mulheres, como a sua av\u00f3, eram tamb\u00e9m guardi\u00e3s de saberes de cura: \u201cEla era a parteira da aldeia e a curandeira.\u201d Lamenta que esses conhecimentos estejam a desaparecer, defendendo que \u201ca nossa cultura n\u00e3o \u00e9 a da cidade, \u00e9 a cultura rural \u2014 e essa est\u00e1 em risco.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua vis\u00e3o, h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o natural entre as mulheres e a agricultura sustent\u00e1vel. \u201cEste tipo de agricultura \u00e9 mais emocional, mais sens\u00edvel, exige mais paci\u00eancia \u2014 e, por causa da nossa hist\u00f3ria, as mulheres acabam por estar mais ligadas a ela.\u201d Explica que, em zonas com poucas oportunidades de emprego, os homens tendem a procurar trabalho fora, enquanto as mulheres ficam e dedicam-se ao pequeno quintal, preservando saberes antigos.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu envolvimento na\u00a0<a href=\"https:\/\/bioeco.pt\/\">Bioeco<\/a>, associa\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 agroecologia e agricultura biol\u00f3gica, permitiu-lhe n\u00e3o s\u00f3 escoar os seus produtos em mercados de produtores, como tamb\u00e9m divulgar e valorizar este tipo de agricultura. \u201cA associa\u00e7\u00e3o d\u00e1-nos uma voz mais ampla.\u201d A Bioeco apoia ainda financeiramente os associados na certifica\u00e7\u00e3o. Tentaram, h\u00e1 alguns anos, criar um sistema de comercializa\u00e7\u00e3o conjunta, mas \u201cn\u00e3o teve pernas para andar, porque era tudo trabalho volunt\u00e1rio.\u201d Defende que, para iniciativas como o fornecimento de cantinas escolares ou hospitalares com alimentos saud\u00e1veis, \u00e9 essencial haver financiamento e trabalho remunerado.<\/p>\n\n\n\n<p>Critica a pol\u00edtica agr\u00edcola, questionando a l\u00f3gica de ter de pagar para certificar os seus produtos, enquanto a agricultura convencional n\u00e3o \u00e9 sujeita ao mesmo controlo. \u201cEu pago para certificar um produto de qualidade, e quem usa qu\u00edmicos indiscriminadamente vende sem qualquer controlo. N\u00e3o faz sentido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Considera que os subs\u00eddios favorecem os grandes produtores e ignoram as especificidades da pequena agricultura, sobretudo em terrenos inclinados e de dif\u00edcil mecaniza\u00e7\u00e3o. \u201cEstas zonas deviam ser valorizadas de forma diferente \u2014 e tamb\u00e9m quem pega em terrenos antigos e lhes d\u00e1 nova vida.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Eunice-e1739364403383.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1560\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Eunice Tavares, produtora pecu\u00e1ria em modo biol\u00f3gico, criadora de burros de ra\u00e7a de Miranda e dirigente da AGRITAD &#8211; Vila Real<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eunice, de 32 anos, natural de Lamego e residente em Vila Real, iniciou-se na agricultura ainda durante os estudos universit\u00e1rios. Sem qualquer experi\u00eancia pr\u00e9via, come\u00e7ou em 2011 por arrendar terrenos e adquirir burras da ra\u00e7a de Miranda, animais que viriam a ser os seus primeiros mestres: \u201cForam elas que nos ensinaram tudo o que sabemos hoje.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A liga\u00e7\u00e3o aos burros tornou-se profundamente emocional, ao ponto de tornar dif\u00edcil a venda das crias: \u201cAt\u00e9 me arrepio quando falo dos burros, s\u00e3o mesmo fam\u00edlia.\u201d Hoje, promove visitas gratuitas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, com o objetivo de sensibilizar crian\u00e7as e adultos para o valor destes animais. Com o tempo, a atividade cresceu e passou tamb\u00e9m \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de carne de vaca maronesa certificada em modo biol\u00f3gico. A explora\u00e7\u00e3o conta atualmente com cerca de 50 cabe\u00e7as de gado, vendidas atrav\u00e9s da cooperativa local.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, Eunice cofundou a\u00a0Agritad, uma associa\u00e7\u00e3o membro da <a href=\"https:\/\/www.cna.pt\/\">Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Agricultura<\/a> (membro da <a href=\"https:\/\/www.eurovia.org\/\">V\u00eda Campesina<\/a>). Esta iniciativa permitiu-lhe conciliar a pr\u00e1tica agr\u00edcola com o associativismo, promovendo e defendendo os direitos dos pequenos agricultores. \u201cQuando somos agricultores, \u00e9 mais f\u00e1cil lutar pelas coisas, porque sentimos na pele\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto mulher no sector agr\u00edcola, enfrenta desafios constantes, desde a desvaloriza\u00e7\u00e3o da sua capacidade f\u00edsica at\u00e9 \u00e0 necessidade permanente de se afirmar num meio ainda dominado por homens. \u201cN\u00e3o somos valorizadas. Sinto que ficamos sempre atr\u00e1s da figura masculina\u201d, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Eunice tamb\u00e9m critica o estigma social associado \u00e0 imagem do agricultor. \u00c9 frequentemente questionada sobre a sua apar\u00eancia cuidada e as unhas feitas, como se isso fosse incompat\u00edvel com o trabalho no campo. \u201cN\u00e3o \u00e9 por sermos agricultoras que n\u00e3o merecemos isso\u201d, defende. Para ela, cuidar de si pr\u00f3pria \u00e9 um direito, tal como o \u00e9 para qualquer outra profiss\u00e3o: \u201cUm agricultor \u00e9 uma pessoa como outra qualquer, que se merece cuidar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sublinha ainda o papel central das mulheres na agricultura do Norte de Portugal, onde, segundo ela, sempre foram protagonistas. \u201cSe calhar 90% ou mais das explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas eram \u2014 e continuam a ser \u2014 geridas por mulheres.\u201d No entanto, apesar de serem as principais respons\u00e1veis, os apoios e candidaturas recaem, na maioria das vezes, sobre os homens. Muitas agricultoras continuam sem seguran\u00e7a social ou seguro de trabalho, ficando desprotegidas. \u201cJ\u00e1 conseguimos mudar algumas coisas, mas \u00e9 dif\u00edcil, n\u00e3o \u00e9 um trabalho f\u00e1cil\u201d, reconhece.<\/p>\n\n\n\n<p>Eunice apela \u00e0 auto-valoriza\u00e7\u00e3o e \u00e0 visibilidade das mulheres no sector: \u201cSe n\u00e3o nos impusermos, acabamos por ficar na sombra \u2014 e isso \u00e9 o que n\u00e3o devemos fazer. \u00c0s vezes temos de perder um bocadinho da humildade.\u201d Incentiva as mulheres agricultoras a unirem-se, a expressarem-se e a reivindicarem o seu espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de reconhecer avan\u00e7os na inclus\u00e3o feminina no movimento associativo, considera que a presen\u00e7a das mulheres continua aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. \u201c\u00c0s vezes convidam-nos s\u00f3 para estarmos presentes ou porque \u00e9 obrigat\u00f3rio. Mas n\u00f3s, quando estamos, estamos \u2014 temos de ser ouvidas e dar a nossa opini\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na produ\u00e7\u00e3o, seguem pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis: n\u00e3o utilizam herbicidas nem inseticidas e optam por variedades portuguesas e tradicionais. \u201cSe temos forma de produzir com produtos mais naturais, n\u00e3o faz sentido usar outras coisas.\u201d Embora estejam certificados em modo biol\u00f3gico, Eunice refere que isso n\u00e3o se traduza em valoriza\u00e7\u00e3o no mercado. Ainda assim, mant\u00eam as pr\u00e1ticas por convic\u00e7\u00e3o: \u201cNo fundo, isto passa por uma quest\u00e3o de consci\u00eancia e daquilo que estamos a dar aos outros.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Critica tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o entre os agricultores e o Minist\u00e9rio da Agricultura, considerando que as pol\u00edticas est\u00e3o completamente desajustadas da realidade, sobretudo no interior e no norte do pa\u00eds. \u201cOs senhores que est\u00e3o l\u00e1 em cima nos Minist\u00e9rios est\u00e3o completamente alheios \u00e0 agricultura que se pratica.\u201d Apesar da exist\u00eancia de apoios financeiros, as regras associadas tornam-nos inacess\u00edveis para a maioria: \u201cOs milh\u00f5es de que tanto se fala s\u00f3 ficam para os grandes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A burocracia excessiva, diz, contribui para o abandono das zonas rurais e para a emigra\u00e7\u00e3o. Refere o impacto devastador dos inc\u00eandios e como a agricultura poderia ser uma aliada na sua preven\u00e7\u00e3o, como se viu nos fogos de 2024 em Castro Daire, que s\u00f3 foram travados onde havia agricultura e pastor\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a nova Pol\u00edtica Agr\u00edcola Comum (PAC), considera que prejudicou os pequenos agricultores, especialmente os jovens. \u201cT\u00ednhamos muitos jovens a querer seguir a agricultura\u2026 agora dizem \u2018n\u00e3o\u2019.\u201d Aponta ainda a digitaliza\u00e7\u00e3o imposta pelo governo como irrealista, dada a falta de acesso \u00e0 internet em muitas zonas rurais e as dificuldades dos agricultores mais velhos com as novas tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro problema grave \u00e9 o impacto dos animais selvagens, como lobos e javalis, que destroem culturas e dizimam rebanhos. Relata ataques diurnos de lobos e critica a ina\u00e7\u00e3o das autoridades, acusando o ICNF de transferir responsabilidades para as associa\u00e7\u00f5es de agricultores sem oferecer solu\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n\n\n\n<p>No final, Eunice deixa um apelo ao governo: que ou\u00e7a as associa\u00e7\u00f5es e os pequenos agricultores, e que reformule as pol\u00edticas para garantir a sobreviv\u00eancia da agricultura no interior e no norte, que \u00e9 tamb\u00e9m \u201ctradi\u00e7\u00f5es, costumes, um patrim\u00f3nio que se est\u00e1 a perder\u201d. \u201cEra bom que 2025 nos trouxesse essa mudan\u00e7a e nos deixasse ver um bocadinho de luz ao fundo do t\u00fanel\u201d, diz, referindo-se aos anos recentes marcados pela incerteza e pela falta de esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Aponta ainda as diferen\u00e7as na valoriza\u00e7\u00e3o do agricultor em pa\u00edses como a Su\u00ed\u00e7a ou Fran\u00e7a, onde h\u00e1 mais apoio \u00e0 estabilidade das fam\u00edlias rurais. Critica o facto de se incentivarem profissionais de outras \u00e1reas a mudarem-se para o interior, enquanto se esquecem dos que j\u00e1 l\u00e1 vivem. \u201cO verdadeiro apoio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dinheiro, \u00e9 garantir servi\u00e7os essenciais como educa\u00e7\u00e3o, transportes e sa\u00fade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua vis\u00e3o, ser agricultor \u00e9 uma luta constante contra obst\u00e1culos diversos: legisla\u00e7\u00e3o, impostos, intemp\u00e9ries e preconceito social. \u201cAgora at\u00e9 nos criminalizam, como se f\u00f4ssemos os culpados pelos inc\u00eandios ou pelos problemas ambientais. O agricultor n\u00e3o rouba.\u201d Para Eunice, \u00e9 urgente reivindicar o reconhecimento da profiss\u00e3o e combater a ideia de que os agricultores s\u00e3o \u201csubs\u00eddio-dependentes\u201d. \u201cO que recebemos s\u00e3o apoios, n\u00e3o subs\u00eddios. A agricultura n\u00e3o \u00e9 lucrativa \u2014 \u00e9 penosa. Mas somos n\u00f3s que pomos o alimento na mesa das pessoas. Sem n\u00f3s, n\u00e3o h\u00e1 nada.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1582\"\/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Maria da Visita\u00e7\u00e3o \u00e9 agricultora agroecol\u00f3gica e membro do PROVE &#8211; Aiana de Cima, Sesimbra, Set\u00fabal<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Maria da Visita\u00e7\u00e3o, de 82 anos, \u00e9 natural do Algarve, onde desde cedo desenvolveu uma forte liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra, acompanhando os av\u00f3s e o pai, ambos agricultores. Recorda com nitidez a import\u00e2ncia da escolha criteriosa das sementes para a colheita seguinte: \u201cA minha av\u00f3 escolhia o trigo, os melhores feij\u00f5es, o gr\u00e3o mais bonito \u2014 tudo o que fosse melhor para voltar a semear. Isso fica gravado na nossa mem\u00f3ria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 15 anos, mudou-se para a cidade industrial do Barreiro, onde viveu durante anos numa zona fortemente polu\u00edda pela ind\u00fastria, o que acabou por afetar a sua sa\u00fade. Por volta dos 50 anos, decidiu regressar \u00e0 terra e iniciar uma produ\u00e7\u00e3o de agricultura biol\u00f3gica na <a href=\"https:\/\/www.prove.com.pt\/www\/sk-pub-produtores.php?PRDID=186\">Quinta dos Medronheiros<\/a>, em Sesimbra. O interesse pelo cultivo sem qu\u00edmicos surgiu por raz\u00f5es de sa\u00fade e tamb\u00e9m pela influ\u00eancia do filho, que hoje continua a actividade agr\u00edcola.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio, procurou aprender mais e tornou-se s\u00f3cia da <a href=\"https:\/\/agrobio.pt\/\">Agrobio<\/a>, onde frequentou v\u00e1rios cursos. Come\u00e7ou por vender os seus produtos em lojas, mas deparou-se com exig\u00eancias dif\u00edceis: \u201cSe a fruta tinha um defeito, n\u00e3o queriam; se tivesse uma picadinha de um bichinho, n\u00e3o queriam.\u201d Passou ent\u00e3o a participar em feiras e mercados, onde enfrentou o ceticismo de outros produtores: \u201cNatural \u00e9 o meu, o meu \u00e9 que \u00e9 natural. Isso do biol\u00f3gico n\u00e3o interessa a ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O seu envolvimento com a agricultura biol\u00f3gica levou-a a integrar, desde o in\u00edcio, o projecto\u00a0<a href=\"https:\/\/www.prove.com.pt\/www\/\">PROVE<\/a>, h\u00e1 cerca de 20 anos \u2014 uma iniciativa que promove a venda directa de produtos agr\u00edcolas da pequena agricultura atrav\u00e9s de cabazes. Recorda as primeiras reuni\u00f5es, com 30 a 40 agricultores: \u201cNingu\u00e9m quis, s\u00f3 eu e estas senhoras.\u201d Foram quatro mulheres que deram os primeiros passos no PROVE e o impulsionaram nos anos iniciais. Com o tempo, mais produtores se juntaram, ao verem o sucesso da iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria da Visita\u00e7\u00e3o enfrentou preconceitos por ser mulher e por praticar agricultura biol\u00f3gica. Foi apelidada de \u201cbruxa\u201d e acusada de pertencer a \u201cseitas religiosas\u201d. Mas nunca se deixou abalar: \u201cNunca desisti de nada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sublinha o papel essencial das mulheres neste movimento por uma agricultura mais sustent\u00e1vel: \u201cAs mulheres s\u00e3o m\u00e3es, s\u00e3o criadoras. E h\u00e1 coisas que sabem ultrapassar.\u201d Para ela, as mulheres demonstram uma resili\u00eancia e uma capacidade de adapta\u00e7\u00e3o not\u00e1veis, sobretudo em tempos de crise. Muitas t\u00eam um papel central no cultivo, na selec\u00e7\u00e3o das sementes e no cuidado com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p>A venda directa atrav\u00e9s do PROVE permitiu-lhe criar uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com os consumidores, algo que valoriza profundamente: \u201cTenho clientes h\u00e1 30 anos, que agora trazem os filhos e os netos.\u201d Para ela, essa liga\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m do com\u00e9rcio: \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e partilha de valores. Hoje, sente-se realizada com o seu percurso e feliz por fazer parte do PROVE: \u201c\u00c9 bom conhecer muitas pessoas com o mesmo sentido de vida, de agricultura e de preserva\u00e7\u00e3o do ambiente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outro pilar do seu trabalho \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o das sementes tradicionais. Utiliza variedades antigas, algumas trazidas da sua terra natal, por acreditar na import\u00e2ncia da biodiversidade: \u201cSe n\u00e3o se preservar, o que \u00e9 que fica para os vindouros? Nada.\u201d Participa activamente na associa\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/colherparasemear.wordpress.com\/\">Colher para Semear<\/a>, que se dedica \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio agr\u00edcola.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo, lamenta que a agricultura biol\u00f3gica ainda n\u00e3o seja devidamente valorizada. Mas isso n\u00e3o a desanima: \u201cSinto-me bem comigo, com a forma como fa\u00e7o as coisas.\u201d Defende que deveria haver mais forma\u00e7\u00e3o, pois muitos agricultores desconhecem pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis. Critica o uso excessivo e ineficaz de qu\u00edmicos na agricultura convencional, que prejudica o ambiente e a sa\u00fade: \u201cN\u00e3o se deve matar, deve-se adormecer. Porque se o bichinho estiver adormecido, n\u00e3o anda, n\u00e3o come, morre.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Maria da Visita\u00e7\u00e3o acredita que as pol\u00edticas p\u00fablicas favorecem sobretudo a agricultura intensiva. Aponta a falta de incentivos para os pequenos agricultores e critica a burocracia que dificulta o acesso a apoios.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o futuro, deseja uma agricultura mais sustent\u00e1vel e menos dependente de qu\u00edmicos: \u201cPara que a \u00e1gua que possamos beber seja limpa, para que o ar que possamos respirar seja puro, para que os nossos filhos e netos possam sobreviver.\u201d Com orgulho no seu percurso, deixa um apelo aos agricultores: que assumam a profiss\u00e3o sem vergonha: \u201cM\u00e3os sujas, roupa suja. Porque sujas est\u00e3o as cabe\u00e7as das pessoas que n\u00e3o pensam no bem-estar dos outros.\u201d E conclui: \u201cSer agricultor \u00e9 uma profiss\u00e3o desprezada, mas \u00e9 a mais b\u00e1sica de todas. N\u00e3o h\u00e1 nada que a gente tenha que n\u00e3o venha da terra. Tudo o que temos sai da terra.\u201d<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maite-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1842\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maite-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maite-300x169.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maite-768x432.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maite-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maite.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\"><strong>Maite Aristegi, agricultora, advogada, antiga secret\u00e1ria-geral do sindicato agr\u00edcola EHNE (1997-2002), deputada ao Congresso espanhol como representante da Esquerda Soberanista Basca (2011-2015) &#8211; Bergara, Gipuzkoa<\/strong><\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Maite nasceu e cresceu na quinta <a href=\"https:\/\/www.nekatur.net\/lamaino\">Lama\u00f1o Etxeberri<\/a>, onde desde muito jovem ajudou nas tarefas agr\u00edcolas, vendendo leite e legumes com a sua m\u00e3e. Foi aqui que aprendeu o valor do trabalho bem feito, o cuidado da terra e a rela\u00e7\u00e3o direta com os clientes. Embora quisesse estudar enfermagem, sendo a \u00fanica filha entre cinco irm\u00e3os, os pais encorajaram-na a ficar e acabou por estudar direito. Quando terminou, foi trabalhar como advogada no sindicato agr\u00edcola EHNE, ainda muito jovem. Foi confrontada com um ambiente muito masculino e com um modelo agr\u00edcola em muta\u00e7\u00e3o, que se orientava para a produ\u00e7\u00e3o intensiva, deixando para tr\u00e1s a escala humana da explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola tradicional e onde \u201ca produ\u00e7\u00e3o de leite era rainha e tudo o resto ficava um pouco para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Recorda como, durante anos, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mundo agr\u00e1rio foi limitada e secund\u00e1ria: \u201cEra um mundo de homens\u201d, explica, onde elas vinham consultar d\u00favidas mas raramente participavam nas decis\u00f5es. Muitas vezes, n\u00e3o tinham acesso a direitos como a seguran\u00e7a social, apesar de trabalharem tanto como os homens nas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas. \u201cFoi uma lei feita com um machismo total\u201d, denuncia, lembrando que o modelo de agricultura intensiva refor\u00e7ou essa exclus\u00e3o. Com a mecaniza\u00e7\u00e3o e a especializa\u00e7\u00e3o das explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, as mulheres foram relegadas para tarefas menos vis\u00edveis, ao mesmo tempo que suportavam o peso dos cuidados familiares. Perante um sistema que premiava a produ\u00e7\u00e3o em massa e desvalorizava o trabalho diversificado, muitas mulheres sentiram-se \u201csem tempo, sem voz e sem reconhecimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, por\u00e9m, as mulheres come\u00e7aram a organizar-se, a formar-se e a recuperar a sua voz. \u201cCome\u00e7\u00e1mos a reunir-nos para verbalizar os nossos problemas e procurar respostas\u201d, conta Maite. O contato com outras experi\u00eancias europeias e com modelos baseados na venda direta ou na transforma\u00e7\u00e3o artesanal dos produtos mostraram que era poss\u00edvel outro caminho. \u201cN\u00e3o \u00e9 preciso tanto\u201d, diziam, vendo que um modelo mais pequeno e mais diversificado poderia ser vi\u00e1vel, sustent\u00e1vel e mais satisfat\u00f3rio. Apesar de enfrentarem frequentemente obst\u00e1culos burocr\u00e1ticos e culturais, a sua vis\u00e3o tem vindo a ganhar terreno, convencidas de que o futuro reside numa agricultura viva, solid\u00e1ria e centrada nas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Maite explica que as mulheres agricultoras enfrentam barreiras estruturais e ideol\u00f3gicas. Por um lado, partilham com os homens o desafio de alcan\u00e7ar um modelo agr\u00e1rio digno e vi\u00e1vel que garanta a qualidade de vida no quadro da soberania alimentar. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m obst\u00e1culos espec\u00edficos que afetam as mulheres, como a desigualdade de acesso aos direitos laborais, \u00e0 licen\u00e7a de maternidade e \u00e0 seguran\u00e7a social. \u201cMuitas vezes, as maiores dificuldades s\u00e3o econ\u00f3micas\u201d, afirma, lembrando que s\u00e3o as mulheres que ficam de fora do sistema por falta de recursos ou por decis\u00f5es ideol\u00f3gicas. Ela tamb\u00e9m ressaltou a import\u00e2ncia de pol\u00edticas que permitam a partilha de cuidados e o avan\u00e7o na igualdade, j\u00e1 que \u201choje, para se fixar no campo, precisamos de pol\u00edticas p\u00fablicas que possibilitem agilizar alguns trabalhos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de saudar avan\u00e7os como o Estatuto da Mulher Agricultora (aprovado por unanimidade no Parlamento Basco em 2015), Maite critica o facto de estas conquistas permanecerem, muitas vezes, simb\u00f3licas. &#8220;Tem de ser economicamente vi\u00e1vel. Se n\u00e3o for, tudo o resto \u00e9 in\u00fatil&#8221;, diz. Denuncia tamb\u00e9m o facto de pol\u00edticas como a PAC n\u00e3o atacarem as ra\u00edzes do problema, perpetuando um modelo agroindustrial que deixa as mulheres de fora. Para ela, uma mudan\u00e7a de modelo \u00e9 fundamental: \u201cAs mulheres estar\u00e3o na agricultura \u00abl\u00f3gica\u00bb\u201d. Apela a um maior apoio \u00e0s iniciativas e projetos agroecol\u00f3gicos liderados por mulheres e a menos obst\u00e1culos burocr\u00e1ticos. &#8220;O feminismo tamb\u00e9m nos empoderou muito\u2026 juntas podemos fazer isso. E n\u00e3o podemos ficar caladas&#8221;, conclui.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Amets-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1841\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Amets-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Amets-300x169.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Amets-768x432.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Amets-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Amets.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Amets Ladislao,membro da cooperativa de produtos ecol\u00f3gicos e locais Bizkaigane, membro do executivo do sindicato agr\u00e1rio EHNE-Bizkaia e membro de las <a href=\"https:\/\/etxaldeko-emakumeak.elikaherria.eus\/\">Etxaldeko Emakumeak<\/a> \/ Mulheres de Etxalde &#8211; Errigoiti, Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Amets, nascida em Algorta, afastou-se do percurso universit\u00e1rio tradicional ap\u00f3s uma experi\u00eancia frustrante num curso de Hist\u00f3ria. Decidiu dedicar-se ao trabalho agr\u00edcola, apesar da rejei\u00e7\u00e3o inicial da sua fam\u00edlia. Disse-lhes: \u201cquero ser agricultora\u201d, e come\u00e7ou a sua forma\u00e7\u00e3o na escola agr\u00edcola de Derio. Sem antecedentes familiares na agricultura, trabalhou durante mais de 20 anos em v\u00e1rias explora\u00e7\u00f5es em Bizkaia, o que lhe deu um vasto conhecimento do sector. Atualmente, trabalha na cooperativa <a href=\"https:\/\/www.bizkaigane.eus\/index_es.html\">Bizkaigane<\/a> e colabora ativamente com o sindicato <a href=\"https:\/\/www.ehnebizkaia.eus\/\">EHNE-Bizkaia<\/a>, onde tem vindo a assumir responsabilidades de forma natural: &#8220;Envolver-me no sindicalismo tem sido apenas mais uma parte do meu trabalho, tal como a produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o consigo entender uma coisa sem a outra&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Como integrante do sindicato EHNE-Bizkaia, Amets defende um sindicalismo feminista e agroecol\u00f3gico, comprometido com a soberania alimentar e a transforma\u00e7\u00e3o do modelo de produ\u00e7\u00e3o. Ela reconhece que o feminismo dentro do sindicato tem sido impulsionado pelas mulheres desde baixo, exigindo modelos agr\u00edcolas mais diversificados e sustent\u00e1veis: \u201cN\u00f3s mulheres ficamos nos modelos pequenos e entendemos que isso tamb\u00e9m \u00e9 um compromisso pol\u00edtico\u201d. Embora existam desafios em termos de participa\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os mais amplos, refere que no feminismo existe agora \u201cuma tend\u00eancia para cuidar mais dos espa\u00e7os em si mais do que em fazer actividades; passamos muito tempo a ver como nos sentimos, ao inv\u00e9s de fazermos coisas\u201d. Considera que \u201cas mulheres camponesas t\u00eam uma urg\u00eancia pr\u00e1tica e que entendemos os cuidados a partir de uma perspetiva diferente\u201d, raz\u00e3o pela qual defende que o feminismo campon\u00eas tem as suas pr\u00f3prias formas e tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Amets conta as muitas dificuldades de ser mulher e jovem num sector historicamente envelhecido e masculinizado. Explica que o trabalho das mulheres \u00e9 muitas vezes valorizado de um ponto de vista paternalista, o que impede uma cr\u00edtica construtiva e uma verdadeira aprendizagem: &#8220;tu fazes as tuas asneiras e ningu\u00e9m se atreve a dizer &#8216;assim n\u00e3o!'&#8221; Apesar destas barreiras, destaca o empenhamento do seu sindicato no feminismo, que deixou de ser \u201co ponto final da agenda\u201d para ser integrado em todos os debates. Ao contr\u00e1rio de adotar estrat\u00e9gias mais diretas como as do Sindicato Labrego Galego, no EHNE optaram por uma incorpora\u00e7\u00e3o progressiva do feminismo: \u201cfomos introduzindo os temas aos poucos\u201d, procurando n\u00e3o gerar desconforto, mas mantendo a firmeza do objetivo transformador.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de uma perspetiva interseccional, Amets denuncia a tripla precariedade enfrentada pelas mulheres rurais: econ\u00f3mica, pol\u00edtica e de g\u00e9nero. \u201cSomos mulheres e, por isso, sofremos todas as discrimina\u00e7\u00f5es que as mulheres sofrem em geral: invisibilidade, julgamento permanente\u2026\u201d. Acrescenta que muitas n\u00e3o eram reconhecidas como mulheres camponesas nem por elas pr\u00f3prias, devido ao patriarcado, e recorda como o seu sindicato promoveu, nos anos de 1990, medidas para garantir a contribui\u00e7\u00e3o das mulheres para a seguran\u00e7a social. No entanto, ainda hoje as pol\u00edticas p\u00fablicas, como a PAC, perpetuam as desigualdades ao subsidiar os propriet\u00e1rios de terras e de animais, na sua maioria homens ou grandes empresas, em vez de apoiarem aqueles que efetivamente trabalham a terra. \u201cA PAC \u00e9 a \u00fanica ajuda p\u00fablica em toda a Europa que n\u00e3o est\u00e1 ligada a um rendimento\u201d, denuncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Amets critica igualmente a falta de desenvolvimento do Estatuto Basco da Mulher Agricultora, salientando que este se tornou um fim em si mesmo: \u201cquando tivemos o Estatuto, pronto, toda a gente respirou de al\u00edvio\u201d. Embora tenha promovido medidas como a paridade nas dire\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es, adverte que, sem um trabalho profundo sobre as rela\u00e7\u00f5es de poder, estas mudan\u00e7as s\u00e3o insuficientes. Recorda o caso da organiza\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.uaga.eus\/\">UAGA<\/a>, cuja dire\u00e7\u00e3o se desfez porque n\u00e3o integrou verdadeiramente as mulheres que entraram na dire\u00e7\u00e3o. Por fim, insiste que o que procuram, enquanto mulheres camponesas, n\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a superficial, mas uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural: \u201co que queremos \u00e9 um novo cen\u00e1rio que j\u00e1 n\u00e3o possa ser revertido\u201d.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Malu-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1840\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Malu-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Malu-300x169.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Malu-768x432.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Malu-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Malu.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Malu Egiluz, criadora de gado com venda direta e de um restaurante, envolvida na Rede Artea (um espa\u00e7o de acolhimento de migrantes no munic\u00edpio rural de Artea) e membro do sindicato agr\u00edcola EHNE-Bizkaia &#8211; Areatza, Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Malu conta com emo\u00e7\u00e3o a sua inf\u00e2ncia na casa da quinta da fam\u00edlia, marcada por uma vida comunit\u00e1ria profundamente ligada \u00e0 terra. Era \u201cum tempo m\u00e1gico\u201d, diz ela, em que o ritmo de vida era marcado pelas esta\u00e7\u00f5es do ano e pelo trabalho rural partilhado. No entanto, este mundo come\u00e7ou a desaparecer quando a moderniza\u00e7\u00e3o e as infra-estruturas fragmentaram as comunidades rurais: \u201cA aldeia desmoronou-se, as casas foram demolidas\u2026 e a casa dos meus av\u00f3s foi a \u00fanica que ficou de p\u00e9\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Conscientes desta perda, decidiram empreender um processo de recupera\u00e7\u00e3o do mundo rural a partir do que tinham: \u201cAs nossas vacas, que estavam no campo e iam para os pastos de Gorbea\u201d. A partir da\u00ed, reconstru\u00edram espa\u00e7os tradicionais como o paiol de carv\u00e3o e abriram uma pequena loja-bar-talho, recuperando tamb\u00e9m receitas e produtos locais. Mais tarde, integraram a agricultura num projeto social ligado ao acolhimento de imigrantes: \u201cSe algu\u00e9m quiser trabalhar aqui e ficar na terra, tem uma oportunidade de progredir connosco\u201d. Embora reconhe\u00e7a que nem todos os imigrantes querem voltar a trabalhar a terra, valoriza o processo como uma forma de \u201cdar outro sentido \u00e0 vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante das dificuldades do retorno ao campo, Malu encontrou no sindicato <a href=\"https:\/\/www.ehnebizkaia.eus\/\">EHNE<\/a> um espa\u00e7o de apoio e resist\u00eancia. J\u00e1 em crian\u00e7a, recorda as lutas camponesas: \u201cLembro-me de ordenhar as vacas e depois deitar o leite fora\u201d e dos protestos contra os pre\u00e7os impostos pelas centrais de recolha do leite. Mais tarde, quando regressou \u00e0 quinta, o mundo rural parecia-lhe \u201cbastante morto\u201d, e foi o sindicato que lhe ofereceu comunidade e forma\u00e7\u00e3o, nomeadamente atrav\u00e9s das mulheres a\u00ed presentes. A sindicaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a sensibilizou para a dimens\u00e3o global dos problemas rurais: \u201ca produ\u00e7\u00e3o de grandes extens\u00f5es, as monoculturas de soja, as planta\u00e7\u00f5es de eucalipto\u2026 e a forma como os camponeses est\u00e3o a perder as suas terras\u201d. Para Malu, as lutas camponesas s\u00e3o tamb\u00e9m lutas sociais: \u201cse n\u00e3o produzirmos, vimos como podemos ser dependentes\u201d de um sistema alimentar globalizado e desligado da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Malu destaca o papel central que as mulheres t\u00eam desempenhado nas lutas camponesas, tanto a n\u00edvel local como em espa\u00e7os internacionais como a Via Campesina. A partir da sua experi\u00eancia, afirma que \u201cas mulheres s\u00e3o a for\u00e7a motriz, do feminismo e do conhecimento pr\u00e1tico\u201d, e diz-se comprometida com \u201ceste modelo pequeno, agroecol\u00f3gico, e n\u00e3o com essas grandes extens\u00f5es\u201d. Contrasta este modelo com as pol\u00edticas que historicamente favoreceram a industrializa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, que, segundo ela, \u201cn\u00e3o os conduziram ao s\u00edtio certo\u201d, especialmente para os pequenos agricultores do Pa\u00eds Basco.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora reconhe\u00e7a avan\u00e7os como a inclus\u00e3o das mulheres no sindicato e a aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto da Mulher Agricultora, Malu critica o alcance real dessas medidas. Salienta que \u201cas mulheres agricultoras sempre estiveram na sombra\u201d e que, embora exista agora uma \u201cvis\u00e3o de g\u00e9nero no sindicato\u201d, \u201cainda h\u00e1 muitas coisas por resolver\u201d. Denuncia igualmente o facto de as pol\u00edticas agr\u00edcolas, como a PAC, terem sido concebidas \u201cpara os grandes e n\u00e3o para os pequenos\u201d, deixando de fora aqueles que cultivam em pequenas extens\u00f5es, como \u00e9 o caso de muitas mulheres agricultoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Malu, ser mulher agricultora implica resistir a m\u00faltiplas dificuldades: \u201c\u00c9 dif\u00edcil ser mulher agricultora\u201d, afirma, sobretudo quando o acesso \u00e0 terra \u00e9 limitado e dispendioso. Critica tamb\u00e9m o modelo de consumo dominante: \u201cOs maiores ataques deste sistema s\u00e3o os supermercados\u201d, onde \u201ceu n\u00e3o diria que h\u00e1 comida, mas h\u00e1 outro neg\u00f3cio\u201d. Face a esta l\u00f3gica, apela a uma agricultura que garanta a \u201cseguran\u00e7a alimentar\u201d e uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e local.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, reflete sobre a perda do \u201ctempo campon\u00eas\u201d, esse ritmo de vida mais calmo e ligado ao ambiente. Lamenta que o sistema atual \u201ctenha roubado o nosso tempo\u201d e denuncia o facto de \u201cestarmos sempre a encher o tempo\u201d em vez de o vivermos plenamente. Perante a desconex\u00e3o geracional, insiste na necessidade de recuperar os saberes ancestrais e de promover pol\u00edticas locais que apostem numa agricultura viva e sustent\u00e1vel: \u201cTemos de recriar\u2026 os nossos espa\u00e7os n\u00e3o estavam cheios de pinheiros\u201d. Apesar dos obst\u00e1culos, Malu mant\u00e9m a esperan\u00e7a de que \u201cn\u00e3o vamos desaparecer como se tem pretendido\u201d.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1006\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Leire.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1845\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Leire.jpg 1920w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Leire-300x157.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Leire-1024x537.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Leire-768x402.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Leire-1536x805.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Leire Sorhouet, membro da cooperativa de produtos agr\u00edcolas biol\u00f3gicos e locais de Bizkaigane e vereadora da C\u00e2mara Municipal de Errigoiti &#8211; Errigoiti, Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Leire, natural de Bilbao e formada em Biologia, encontrou o seu lugar no mundo rural depois de alguns anos no estrangeiro e de uma forma\u00e7\u00e3o em floricultura. A sua entrada na <a href=\"https:\/\/www.bizkaigane.eus\/index_es.html\">Bizkaigane<\/a>, uma cooperativa agr\u00edcola com mais de 40 anos de hist\u00f3ria, foi quase acidental: \u201cChamaram-me para substituir a Amaia durante a sua licen\u00e7a de maternidade durante seis meses\u2026 e j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o sete anos\u201d. Desde ent\u00e3o, consolidou a sua posi\u00e7\u00e3o como uma das tr\u00eas mulheres dos atuais nove membros, participando ativamente num projeto que, desde o in\u00edcio, apostou na coopera\u00e7\u00e3o e na produ\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 cooperativa n\u00e3o foi isenta de receios, sobretudo devido \u00e0s exig\u00eancias f\u00edsicas do trabalho agr\u00edcola. \u201cSentia-me um pouco menor, um pouco pequena\u201d, recorda. No entanto, com o passar do tempo, foi afirmando o seu lugar no grupo gra\u00e7as \u00e0 sua experi\u00eancia, ao seu car\u00e1ter e a uma abordagem mais colaborativa a n\u00edvel do trabalho. Segundo Leire, o cooperativismo assenta na \u201centreajuda, na procura de sinergias e no cuidado\u201d, uma filosofia que transcende o g\u00e9nero e que \u00e9 tamb\u00e9m evidente na organiza\u00e7\u00e3o interna da cooperativa, onde as mulheres, diz ela, contribuem com um saber ao \u201cn\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o e de previs\u00e3o\u201d que enriquece o grupo no seu conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p>A dimens\u00e3o transformadora do projeto reflete-se tamb\u00e9m na vis\u00e3o cr\u00edtica de Leire em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas e aos modelos de produ\u00e7\u00e3o dominantes. Ela ressalta que a mudan\u00e7a deve ser integral, das institui\u00e7\u00f5es aos h\u00e1bitos individuais: \u201cAs decis\u00f5es tomadas v\u00e3o marcar\u2026 o tipo de sociedade em que nos vamos tornar\u201d. A agroecologia, para ela, representa n\u00e3o apenas um modelo agr\u00edcola, mas uma \u00e9tica baseada no cuidado: da terra, dos animais e das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, Leire sublinha a import\u00e2ncia do trabalho em equipa como chave para conciliar o trabalho e a vida pessoal. \u201cN\u00e3o \u00e9 apenas um trabalho, torna-se um modo de vida\u201d, diz ela, recordando as duras condi\u00e7\u00f5es da  explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola tradicional onde a sua av\u00f3 vivia. Em contrapartida, Bizkaigane procura uma outra forma de viver no campo: cooperativa, sustent\u00e1vel e humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Leire, a principal dificuldade em integrar as mulheres no mundo rural reside no equil\u00edbrio entre a vida profissional e familiar e na verdadeira igualdade, que deve ser acompanhada de um reconhecimento institucional: \u201csal\u00e1rios, hor\u00e1rios, empregos, tipos de trabalho\u201d. Embora inicialmente receasse as exig\u00eancias f\u00edsicas do trabalho agr\u00edcola, cedo se apercebeu que o verdadeiro obst\u00e1culo era \u201ctirar da cabe\u00e7a os estere\u00f3tipos recebidos da sociedade ou da fam\u00edlia\u201d. Salienta que a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser apenas pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m social e pessoal: \u201ctemos de trabalhar sobretudo a n\u00edvel social, mas tamb\u00e9m a n\u00edvel pessoal, a partir de dentro\u201d. Para ela, participar num projeto agroecol\u00f3gico \u00e9 um motivo de orgulho, pois n\u00e3o s\u00f3 produz alimentos, como tamb\u00e9m promove a sa\u00fade e a autonomia: \u201cn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a soberania alimentar, mas sermos donos de n\u00f3s pr\u00f3prios a todos os n\u00edveis\u201d.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"577\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Alazne-1024x577.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1790\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Alazne-1024x577.jpeg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Alazne-300x169.jpeg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Alazne-768x433.jpeg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Alazne.jpeg 1129w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Alazne Intxauspe, agricultora biol\u00f3gica e membro da dire\u00e7\u00e3o do sindicato agr\u00edcola EHNE-Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Alazne prov\u00e9m do meio rural, embora os seus pais n\u00e3o vivessem da agricultura. Ainda que criassem animais e cultivassem uma horta, tudo era para consumo pr\u00f3prio. A sua forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e os sete anos de trabalho na produ\u00e7\u00e3o televisiva pareciam mant\u00ea-la afastada do sector agr\u00edcola. No entanto, em 2012, juntamente com o seu parceiro, frequentou um curso em agroecologia oferecido pelo sindicato agr\u00edcola <a href=\"https:\/\/www.ehnebizkaia.eus\/\">EHNE<\/a>, que marcou o in\u00edcio da sua viagem para a horticultura biol\u00f3gica. A sua motiva\u00e7\u00e3o inicial n\u00e3o era tanto a produ\u00e7\u00e3o, mas sim a preocupa\u00e7\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o: ela estava interessada em \u201ccomo nos alimentamos, o que comemos, de onde vem o que comemos\u201d. Esta preocupa\u00e7\u00e3o levou-a a explorar a agroecologia como um poss\u00edvel modo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o hort\u00edcola, Alazne e o seu parceiro iniciaram uma pequena f\u00e1brica de conservas, e, desde 2014, est\u00e1 registada profissionalmente como agricultora. Paralelamente ao seu trabalho produtivo, tem estado muito envolvida na esfera organizacional e sindical, fazendo parte da EHNE Bizkaia, <a href=\"https:\/\/www.elikaherria.eus\/etxalde-2\/\">Etxalde<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.eurovia.org\/es\/\">V\u00eda Campesina<\/a>. Para ela, sempre foi importante \u201ccarregar a enxada e a caneta\u201d, ou seja, combinar o trabalho pr\u00e1tico com a reflex\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o. A sua entrada no sindicato foi muito marcada pelo contexto: o sindicato estava a procurar incorporar jovens e mulheres e, como ela pr\u00f3pria reconhece, \u201cdeixei-me ir e foi assim que entrei para a dire\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A liga\u00e7\u00e3o entre agroecologia e feminismo \u00e9 um dos pilares do seu compromisso. Embora a mudan\u00e7a estrat\u00e9gica da EHNE para um modelo agroecol\u00f3gico tenha sido feita antes da sua entrada na organiza\u00e7\u00e3o, ela considera que nos \u00faltimos anos a perspetiva feminista tamb\u00e9m foi aprofundada. Destaca o trabalho de mulheres de gera\u00e7\u00f5es anteriores, como Maritxu, pioneira na horticultura num contexto agr\u00edcola marcado pela pecu\u00e1ria, e embora \u201cprovavelmente n\u00e3o lhe chamasse feminismo, para mim \u00e9 um claro precedente\u201d, refere. Alazne defende o facto de as mulheres terem estado historicamente na vanguarda do modelo da agricultura familiar e de terem muitas vezes sustentado este sistema com uma l\u00f3gica de cuidado, sustentabilidade e soberania alimentar, sem necessidade de grandes discursos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ela tamb\u00e9m critica as barreiras estruturais que ainda persistem. Salienta que o peso dos cuidados e a dificuldade de alcan\u00e7ar uma verdadeira viabilidade econ\u00f3mica impedem a plena participa\u00e7\u00e3o das mulheres. Aprecia alguns avan\u00e7os legislativos, como o Estatuto da Mulher Agricultora (aprovado pelo Parlamento Basco), mas tamb\u00e9m tem d\u00favidas quanto ao seu impacto: &#8220;fala de tudo, mas fica por a\u00ed. Se n\u00e3o se passa a programas concretos ou a a\u00e7\u00f5es concretas\u2026&#8221;. Quanto aos mecanismos de representa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acredita que o simples estabelecimento de quotas garanta uma verdadeira transforma\u00e7\u00e3o sem um trabalho pr\u00e9vio ao n\u00edvel da base.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da sua experi\u00eancia, insiste que a participa\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o deve ser reduzida apenas a uma quest\u00e3o de g\u00e9nero, mas deve estar aberta a todas as formas de diversidade. Considera essencial construir uma organiza\u00e7\u00e3o viva que tenha em conta diferentes realidades, como a imigra\u00e7\u00e3o, e criar uma lideran\u00e7a partilhada. Mesmo assim, reconhece que o dia a dia imp\u00f5e muitas limita\u00e7\u00f5es: \u201cproduzimos, vendemos, tratamos da papelada\u2026 e depois \u00e9 complicado participar noutros espa\u00e7os, mesmo que se queira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo, observa progressos significativos. No seu meio agroecol\u00f3gico, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 ativa, h\u00e1 mais forma\u00e7\u00e3o, mais espa\u00e7os partilhados e maior visibilidade. Reconhece que \u201cgra\u00e7as ao trabalho que outras fizeram, estamos hoje a viver uma situa\u00e7\u00e3o diferente\u201d. Para ela, a mudan\u00e7a n\u00e3o depende apenas de leis ou pol\u00edticas, mas de um compromisso real, coletivo e constante que se constr\u00f3i de baixo para cima. E se as pol\u00edticas p\u00fablicas querem realmente promover as mulheres no primeiro sector, \u00e9 uma grande contradi\u00e7\u00e3o que, ao mesmo tempo, promovam um modelo industrial de agricultura.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"950\" height=\"533\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Lorena.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1807\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Lorena.jpg 950w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Lorena-300x168.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Lorena-768x431.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Lorena Costas, produtora de queijo de cabra na quinta de Marintarrena &#8211; Otxandio, Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora n\u00e3o tenha nascido no campo, Lorena Costas sempre sentiu que o tinha dentro de si. Criada entre a aldeia de Otxandio e os fins-de-semana na quinta da sua fam\u00edlia, o seu amor pelos animais nasceu cedo, quase como uma obsess\u00e3o natural. Desde muito cedo, j\u00e1 sentia essa liga\u00e7\u00e3o profunda com a terra e os seres vivos que a habitam. \u201cAcho que se nasce agricultor\u201d, diz ela com convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu percurso n\u00e3o foi linear. Durante anos, combinou o trabalho no sector da hotelaria e restaura\u00e7\u00e3o com os estudos, mas nunca encontrou o seu lugar. Amante de cavalos, formou-se como t\u00e9cnica de equita\u00e7\u00e3o, trabalhou em est\u00e1bulos e chegou a pensar em criar algo neste sector. Mas depressa se apercebeu que os custos tornavam este sonho invi\u00e1vel. Depois de se tornar m\u00e3e e de se instalar em Otxandio com o seu companheiro, encontrou um terreno acess\u00edvel para come\u00e7ar algo novo: uma pequena explora\u00e7\u00e3o de caprinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Optou por um modelo de cria\u00e7\u00e3o semi-extensivo e manej\u00e1vel, adaptado ao terreno e ao clima. Hoje, com cerca de 100 cabras, produz o seu pr\u00f3prio queijo e vende-o, na maior parte dos casos, diretamente. Foi um caminho dif\u00edcil, exigente do ponto de vista f\u00edsico e mental, sobretudo enquanto criava as suas duas filhas pequenas. Ela pr\u00f3pria se encarregou da ordenha, da gest\u00e3o, do financiamento, das vendas\u2026 S\u00f3 recentemente \u00e9 que o marido se juntou plenamente ao projeto, embora ela continue ao leme.<\/p>\n\n\n\n<p>Lorena nunca acreditou que o mundo rural fosse apenas para os homens. Diz que as mulheres sempre estiveram presentes em todas as tarefas, embora sempre tenham sido invis\u00edveis. E ela pr\u00f3pria \u00e9 a prova disso: firme, aut\u00f3noma e com uma mem\u00f3ria infal\u00edvel para reconhecer todas as cabras do seu rebanho. Por vezes, recebe coment\u00e1rios sexistas, sobretudo de homens mais velhos, mas responde com confian\u00e7a e humor. Pelo menos no seu meio, as mulheres t\u00eam peso, voz e decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos pilares do seu projeto tem sido a liga\u00e7\u00e3o a redes de produtores locais. Participa em lojas cooperativas como a Etartea, em mercados rurais e em plataformas online que facilitam o acesso a produtos locais, como a <a href=\"https:\/\/denda.iraunkor.eus\/familias.php\">Iraunkor<\/a> ou a <a href=\"https:\/\/azoka.bbk.eus\/\">BBK Azoka<\/a>. Acredita firmemente na aproxima\u00e7\u00e3o do produto ao consumidor, sem depender das grandes cadeias. Para ela, os mercados locais t\u00eam um valor insubstitu\u00edvel, n\u00e3o s\u00f3 comercial, mas tamb\u00e9m humano e comunit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhece tamb\u00e9m o legado das mulheres que a precederam, nomeadamente da sua av\u00f3, com quem aprendeu, sem se aperceber, a semear, a tratar os animais e a gerir uma explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola com ordem e cuidado. Hoje em dia, esses conhecimentos permanecem nela.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as suas filhas ainda n\u00e3o vejam o atrativo da vida rural, Lorena tem a certeza de que um dia dar\u00e3o valor a tudo o que experimentaram. A liberdade, a liga\u00e7\u00e3o com a natureza, a responsabilidade, tudo isso deixa marcas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, critica as pol\u00edticas p\u00fablicas: sente que s\u00e3o feitas de longe, por pessoas que n\u00e3o entendem a realidade da explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. H\u00e1 cada vez mais entraves burocr\u00e1ticos e cada vez menos apoios reais. Abrir uma empresa agr\u00edcola, diz ela, \u00e9 assustador. Mas ela tamb\u00e9m acredita que h\u00e1 um futuro, especialmente se se apostar em modelos sustent\u00e1veis, pequenos e humanos.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Puy-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1819\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Puy-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Puy-300x169.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Puy-768x432.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Puy-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Puy.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Puy Arrieta, pastora, queijaria Ipi\u00f1aburu, vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Criadores de Gado de Zeanuri &#8211; Zeanuri, Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Puy \u00e9 uma mulher dedicada ao fabrico artesanal de queijo, cujo neg\u00f3cio familiar gira em torno da venda direta a partir da sua pr\u00f3pria quinta. Estudou Servi\u00e7o Social e trabalhou noutros sectores, mas o apelo da quinta foi mais forte. Aos 24 anos, decidiu ficar, precisamente quando a crise das \u201cvacas loucas\u201d e a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos de consumo abalaram o modelo familiar, apostando na ra\u00e7a aut\u00f3ctone de ovelhas (latxa) e na produ\u00e7\u00e3o artesanal de queijo.<\/p>\n\n\n\n<p>O queijo representa n\u00e3o s\u00f3 o seu sustento econ\u00f3mico, mas tamb\u00e9m um modo de vida enraizado no territ\u00f3rio, em que o contato direto com os clientes gera la\u00e7os de confian\u00e7a e proximidade. Embora venda alguns dos seus produtos em pequenas lojas na regi\u00e3o de Arratia e participe ocasionalmente em feiras, a maior parte das suas vendas \u00e9 feita a partir de casa, o que tem vantagens mas tamb\u00e9m limita a mobilidade e condiciona a vida dom\u00e9stica.<\/p>\n\n\n\n<p>Participa em organiza\u00e7\u00f5es como a <a href=\"https:\/\/www.acol.eus\/index.php?option=com_content&amp;view=featured&amp;Itemid=124&amp;lang=es\">ACOL<\/a> &#8211; Associa\u00e7\u00e3o de Criadores de Ovinos da Latxa e Carranzana, a Denomina\u00e7\u00e3o de Origem Idiazabal e a Sociedade de Criadores de Zeanuri, onde \u00e9 vice-presidente. Reconhece que muitas mulheres t\u00eam acesso a estes espa\u00e7os devido \u00e0s quotas de paridade, mas tamb\u00e9m sublinha a import\u00e2ncia de estar presente, de ocupar estes espa\u00e7os historicamente masculinizados.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o do g\u00e9nero atravessa a sua experi\u00eancia. Recorda como a sua m\u00e3e, apesar de trabalhar na explora\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria da fam\u00edlia, pagar para o que era ent\u00e3o a seguran\u00e7a social e ter metade da explora\u00e7\u00e3o em seu nome, ela era oficialmente registada como \u201cdona de casa\u201d, um reflexo da invisibilidade estrutural do trabalho das mulheres no mundo rural. Embora se tenham registado progressos, a resist\u00eancia persiste ainda hoje: desde coment\u00e1rios sexistas expl\u00edcitos a quest\u00f5es sobre a legitimidade de uma mulher que se apresenta como \u201cpastora\u201d. Ela, no entanto, define-se com firmeza: \u201cN\u00e3o sou a mulher do pastor, sou a pastora de Ipinaburu\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua perspetiva, muitas mulheres do sector tendem a identificar-se com modelos de produ\u00e7\u00e3o de pequena escala, orientados para a sustentabilidade e para a venda direta. Em contraposi\u00e7\u00e3o ao modelo capitalista e masculinizado que prioriza a rentabilidade e a expans\u00e3o, ela acredita que o enfoque agroecol\u00f3gico n\u00e3o s\u00f3 tem maior afinidade com as mulheres, como tamb\u00e9m representa um caminho poss\u00edvel para transformar o sistema agroalimentar como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela defende um modelo de produ\u00e7\u00e3o extensivo e local, em que as mulheres transformam o pequeno em grande. No entanto, lamenta que as pol\u00edticas p\u00fablicas nem sempre favorecem aqueles que, como ela, trabalham de baixo para cima. As formalidades, os regulamentos e o tratamento uniforme acabam por sufocar os pequenos produtores, enquanto os grandes t\u00eam acesso facilitado, e apela a uma maior sensibilidade institucional para com aqueles que trabalham em pequena escala, a partir de uma abordagem artesanal e local.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o da transmiss\u00e3o geracional parece ser uma quest\u00e3o fundamental. Consciente de que a vida de criadora de gado \u00e9 exigente a n\u00edvel profissional, n\u00e3o espera que os seus filhos prossigam a atividade, mas esfor\u00e7a-se por educ\u00e1-los na igualdade e no valor do trabalho rural. Tanto a filha como o filho est\u00e3o familiarizados com a quinta e participam nas suas tarefas, embora cada um deles esteja a tra\u00e7ar o seu pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a sua aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o se centra apenas nas exig\u00eancias de g\u00e9nero, mas tamb\u00e9m na defesa do primeiro sector como forma de vida, de gest\u00e3o do territ\u00f3rio e da comunidade. Transmite um forte sentimento de identidade e orgulho e reconhece nas mulheres da sua fam\u00edlia uma fonte constante de conhecimento, for\u00e7a e car\u00e1ter. Acredita que ainda h\u00e1 muito a fazer para dar visibilidade e valorizar o trabalho do primeiro sector e que \u00e9 necess\u00e1rio continuar a lutar, tanto a n\u00edvel di\u00e1rio como coletivo.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"550\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Rosa-1024x550.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1829\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Rosa-1024x550.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Rosa-300x161.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Rosa-768x412.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Rosa-1536x825.jpg 1536w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Rosa.jpg 1810w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Rosa <strong>Elgezabal<\/strong>, horticultora e criadora de gado, taberneira, venda direta e transformadora dos seus produtos &#8211; Arrieta, Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde que nasceu em Arrieta, Rosa est\u00e1 profundamente ligada ao mundo rural, vivendo e trabalhando numa quinta tradicional, onde aprendeu desde muito cedo o valor do esfor\u00e7o e da autossufici\u00eancia. Aos 14 anos, a morte do pai levou-a a tomar conta da quinta com a m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da sua vida, Rosa trabalhou como agricultora e criadora de gado, taberneira, vendedora direta em mercados locais e transformadora de produtos. Trabalhou em feiras, cultivou legumes, criou porcos, fez enchidos, mantendo sempre viva a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra. Mesmo durante o tempo em que geriu um bar na aldeia, a liga\u00e7\u00e3o \u00e0 quinta continuou a ser o seu foco.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, ela e o marido mudaram-se para a quinta dele, onde continuaram a cultivar e a criar gado. Durante quase 30 anos, criou e vendeu porcos, estando envolvida em todas as fases do processo. Apesar de trabalhar incansavelmente, muitas vezes sozinha, Rosa sempre se sentiu realizada e orgulhosa por ser dona da sua pr\u00f3pria atividade econ\u00f3mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosa reflete claramente sobre as mudan\u00e7as sociais, sobretudo no que diz respeito ao papel da mulher. Viveu numa \u00e9poca em que as mulheres trabalhavam incansavelmente, tanto em casa como no campo, enquanto os homens tinham mais tempo para descansar. Mas ela tamb\u00e9m fez parte de uma gera\u00e7\u00e3o que lutou para conquistar o seu espa\u00e7o. \u00c9 perempt\u00f3ria sobre a forma como aprendeu a fazer-se respeitar nos mercados e entre os seus pares, sublinhando a import\u00e2ncia de ter car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, \u00e0 beira da reforma e com 38 anos de descontos, Rosa aprecia os progressos realizados. Reconhece que, se tivesse de recome\u00e7ar, talvez o fizesse como um coletivo, com uma vis\u00e3o mais colaborativa, menos centrada na propriedade familiar. Acredita firmemente no trabalho comunit\u00e1rio como uma alternativa sustent\u00e1vel e na necessidade de equil\u00edbrio entre a vida profissional e pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a sua filha n\u00e3o v\u00e1 continuar com a quinta, Rosa mant\u00e9m viva a esperan\u00e7a de que algu\u00e9m com voca\u00e7\u00e3o agr\u00edcola a assuma. Para ela, a ess\u00eancia do campo mant\u00e9m-se viva em instrumentos como a enxada, s\u00edmbolo do trabalho constante e silencioso de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Com serenidade e orgulho, Rosa despede-se do seu trabalho sabendo que a sua vida foi um reflexo fiel do esfor\u00e7o e da dignidade de quem viveu da agricultura. E como diz a frase que acompanha o seu retrato a preto e branco: \u201cEzina ekinez egina\u201d &#8211; o imposs\u00edvel consegue-se com perseveran\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<!--nextpage-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"535\" src=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maritxu-1024x535.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1816\" srcset=\"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maritxu-1024x535.jpg 1024w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maritxu-300x157.jpg 300w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maritxu-768x402.jpg 768w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maritxu-1536x803.jpg 1536w, https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Maritxu.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group alignwide is-vertical is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-fe9cc265 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-contrast-color\">Maritxu Telleria, horticultora reformada e figura hist\u00f3rica do sindicato EHNE-Bizkaia &#8211; Bizkaia<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Maritxu, horticultora reformada e figura hist\u00f3rica do sindicato <a href=\"https:\/\/www.ehnebizkaia.eus\/\">EHNE-Bizkaia<\/a>, foi uma pioneira em muitos aspetos. A sua vida mudou quando, depois de se casar aos 21 anos, deixou o seu trabalho em O\u00f1ati para se mudar para a quinta do marido. Sem qualquer experi\u00eancia anterior no mundo rural, foi a sua cunhada que lhe ensinou os primeiros passos na horta. Pouco a pouco, Maritxu descobriu a alegria de cultivar e vender produtos frescos, tanto no mercado de Durango como no de Arrasate, e tamb\u00e9m em grandes supermercados como o Eroski.<\/p>\n\n\n\n<p>Com determina\u00e7\u00e3o, expandiu a sua atividade agr\u00edcola at\u00e9 ter v\u00e1rias estufas e consolidar um modo de vida na quinta. Durante pelo menos duas d\u00e9cadas, ela e o marido viveram da terra, numa altura em que os mercados locais eram o principal ponto de venda de produtos frescos. Para Maritxu, foi um per\u00edodo intenso e gratificante que ela lembra com carinho.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu envolvimento social come\u00e7ou nas assembleias do sindicato EHNE. Incentivada pelas mulheres que a rodeavam, come\u00e7ou a participar e rapidamente foi convidada a integrar a dire\u00e7\u00e3o, tornando-se a primeira mulher a ocupar um cargo executivo no sindicato. Foi um per\u00edodo exigente: combinava o trabalho agr\u00edcola com reuni\u00f5es noturnas em Bilbao, sendo frequentemente a \u00fanica mulher em espa\u00e7os dominados por homens. Durante algum tempo, sentiu-se invis\u00edvel, como \u201cum vaso de flores\u201d, at\u00e9 que ergueu a voz para exigir que as pessoas de outros sectores produtivos, para al\u00e9m da pecu\u00e1ria, tamb\u00e9m fossem ouvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, o sindicato era a sua universidade. Proporcionou-lhe uma educa\u00e7\u00e3o vital e pol\u00edtica que n\u00e3o poderia ter recebido enquanto jovem. Participou em lutas importantes, como as quotas de produ\u00e7\u00e3o, os pre\u00e7os do leite e os direitos das mulheres na explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Denunciou o facto de, historicamente, as mulheres terem sustentado o trabalho agr\u00edcola a partir da sombra, sem reconhecimento ou direitos. Muitas n\u00e3o podiam participar e envolver-se mais ativamente porque, para al\u00e9m de trabalharem a terra, eram tamb\u00e9m respons\u00e1veis pela casa, pelos filhos e pelos cuidados aos idosos. Maritxu p\u00f4de faz\u00ea-lo gra\u00e7as ao apoio da sua sogra e de uma tia que lhe permitiu ter tempo para participar na luta sindical.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sublinha o papel central das mulheres na agricultura, embora o seu trabalho tenha sido invisibilizado. Recorda as dificuldades em obter o registo das explora\u00e7\u00f5es em seu nome ou em fazer o pagamento das contribui\u00e7\u00f5es para a seguran\u00e7a social, bem como os obst\u00e1culos sociais e administrativos que ainda persistem.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos progressos realizados, considera que a situa\u00e7\u00e3o atual continua a ser dif\u00edcil tanto para as mulheres como para os homens do campo. A burocracia, a press\u00e3o do mercado e a falta de apoio \u00e0s pequenas explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas dificultam a subsist\u00eancia na agricultura. No entanto, se pudesse voltar atr\u00e1s, n\u00e3o hesitaria em escolher o mesmo caminho: viver e trabalhar na quinta, entre hortas e estufas, rodeada de terra, ra\u00edzes e luta.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosa Dias, agricultora agroecol\u00f3gica na Quinta da Fornalha e fundadora da Associa\u00e7\u00e3o Al-Bio &#8211; Castro Marim, Vila Real de S. Ant\u00f3nio, Faro Rosa Dias nunca planeou ser agricultora, nem estudou para isso. No entanto, sempre manteve uma liga\u00e7\u00e3o profunda, familiar e emocional, \u00e0 terra. Filha de um agricultor biol\u00f3gico com mais de 30 anos de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-754","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=754"}],"version-history":[{"count":141,"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/754\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2060,"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/754\/revisions\/2060"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/feed4justice.ces.uc.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}